Vem Aí O Novo DVD De Elba: Show “Cordas, Gonzaga E Afins”.

Publicado: 20/06/2017

Em breve chegará às lojas, via Coqueiro Verde Records, o novo DVD de Elba, com o registro do espetáculo “Cordas, Gonzaga e Afins”, apresentado em setembro de 2014 no Chevorlet Hall (Olinda/PE). Elba recebeu dois convidados especais: o músico Naná Vasconcelos e o cantor e compositor Marcelo Jeneci. Sai nos formatos DVD e kit DVD/CD. Enquanto isso, leia aqui a crítica do jornalista carioca Mauro Ferreira, feita para o blog Notas Musicais na estreia do show em Salvador/BA.

  •  "Na voz que canta tudo ainda arde". Espetáculo de arquitetura teatral, Cordas, Gonzaga e afins está em sintonia com o histórico honroso de Elba Ramalho em palcos brasileiros, repondo a carreira da intérprete paraibana nos trilhos após discos e shows pautados por menor ambição artística. A criação de um espetáculo centrado na obra seminal de Luiz Gonzaga (1912 - 1989) - a mais perfeita tradução das alegrias e tristezas do Nordeste do Brasil - pode até sugestionar paralelismo com o show derivado do álbum Elba canta Luiz (BMG, 2002) e perpetuado no DVD e CD Elba ao vivo (BMG, 2003). Mas nada é do jeito que já foi um dia porque - tal como mentalizado pela jornalista e produtora cultural Margot Rodrigues, idealizadora do espetáculo patrocinado pelo projeto Natura Musical - Elba divide a bela cena com o grupo pernambucano SaGRAMA e com as cordas do também pernambucano Quarteto Encore. O uso dessa formação clássica na abordagem do cancioneiro popular de Gonzaga - e dos compositores afinados com sua obra - dá frescor a todo o repertório costurado pelo diretor André Brasileiro com textos do dramaturgo pernambucano Newton Moreno em roteiro sagaz que faz o sertão virar mar na transposição do primeiro para o segundo ato. Não são apenas cordas - e elas já seriam muito. Elba canta Gonzaga com arranjos calcados em mix renovador de cordas, percussões, sopros e a sanfona de Beto Hortis. De certa maneira, a temática do primeiro ato de Cordas, Gonzaga e afins remete a um dos melhores espetáculos da carreira da cantora, Leão do Norte (1996), por focar as agruras do sertanejo que precisa ser um forte para vencer a batalha cotidiana de sua vida seca - como cantou o rei da nação nordestina no baião Algodão (Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1983), uma das músicas de Gonzaga selecionadas para o roteiro repleto de novidades na voz valente de Elba, ora ouvida nos tons mais graves da maturidade. Leoa, Elba também teve que ser forte na travessia Paraíba-Rio de Janeiro feita em 1974, há 40 longos anos. Por isso, há verdade quando ela entra em cena, da plateia, dando voz a Pau de arara (Luiz Gonzaga e Guio de Moraes, 1952)  Por isso, também, poucas vozes têm - como a de Elba - credibilidade para cantar um repertório de paixões jagunças, para citar termo usado em um dos imagéticos textos de Newton Moreno salpicados no roteiro bem urdido. Quando o telão exibe imagens de Elba no início da carreira, enquanto a intérprete revive Não sonho mais (Chico Buarque, 1979), tudo faz sentido porque Cordas, Gonzaga e afins é - também - o espetáculo comemorativo dos 35 anos de carreira fonográfica da leoa. Brava, Elba não se deixa dominar e apagar em cena pela imponência das orquestrações do SaGRAMA - grupo pernambucano criado em 1995 pelo flautista e maestro Sérgio Campelo, diretor musical do espetáculo - e do Quarteto Encore. A introdução e as passagens villa-lobianas do arranjo de Súplica cearense (Gordurinha e Nelinho, 1967) exemplificam a maestria dos grupos no tratamento orquestral da obra de Gonzaga. Súplica cearense é o primeiro grande momento do show, cuja estreia nacional foi realizada em 23 de agosto de 2014 em apresentação que lotou o Teatro Castro Alves, em Salvador (BA). Mas outros grandes momentos se seguiram - como o link inteligente de Assum branco (José Miguel Wisnik e Tom Zé, 1994) com Assum preto (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1950). Esta toada dolente é pungentemente cantada por Elba com os olhos vendados por suas mãos, em belo efeito cênico e de interpretação. Surte efeito também a ação de Elba abrir um livro ou um envelope ao dizer os textos de Newton Moreno. Sem inventar moda, o diretor André Brasileiro - ligado ao teatro do Recife (PE) - conduz Elba com delicadeza e sensibilidade por roteiro de músicas como O ciúme (Caetano Veloso, 1987), majestosamente emoldurada pelas cordas do Encore e entoada com Elba sentada em caixote que complementa o cenário construído com elementos de tom apropriadamente rústico. O tom de Béradêro (Chico César, 1995), número-vinheta em que Elba reproduz os tons agrestes de seu canto nos anos 1970. Na sequência, Ave Maria sertaneja (Júlio Ricardo e Osvaldo de Oliveira, 1964) abre bloco de clima sacro em que vida, religião e morte se entrelaçam, culminando com Funeral de um lavrador (Chico Buarque sobre texto de João Cabral de Melo Neto, 1964). A propósito, a lembrança do poeta recifense João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999) - cujo texto da cigana em sua obra-prima Morte e vida severina (1955) é dito em cena por Elba - é oportuna porque a obra de João Cabral também retrata com fidelidade e poesia esse universo de paixões jagunças. Balaio de sementes, como poetizado por Elba em outro texto de Cordas, Gonzaga e afins, o cancioneiro do Rei do Baião frutifica em cena ao som dos compositores afins como o cantor e compositor pernambucano Accioly Neto (1950 - 2000) - de quem Elba revive A natureza das coisas (2000) em número de empatia popular - e o cantor e compositor pernambucano Alceu Valença, representado por Tomara (Alceu Valença e Rubem Valença Filho, 1990). Mas o eixo do roteiro reside na obra de Gonzagão, cuja pouco ouvida toada Adeus, Iracema (Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1962) faz o sertão virar mar a partir do segundo ato, iniciado com a itinerante A violeira (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1983). Esse mar fundo abarca a Ciranda praieira (1998) de Lenine e Paulo César Pinheiro, remexendo em águas de Pernambuco, terra do frevo de bloco Aquela rosa (Geraldo Azevedo e Carlos Fernando, 1979) e de maracatus como Braia dengosa (Luiz Gonzaga e Guio de Moraes, 1952), outro título pouco ouvido do cancioneiro de um rei que extrapolou o universo do baião. Para quem acompanha a trajetória de Elba, Cordas, Gonzaga e afins mostra músicas nunca encaradas pela leoa, que, mesmo insegura com a letra de Domingo no parque (Gilberto Gil, 1967), oferece boa interpretação deste clássico da fase tropicalista da obra do compositor baiano Gilberto Gil. Nessa música, o SaGRAMA se guia pela orquestração emblemática do maestro Rogério Duprat (1932 - 2006) sem deixar de pôr seu toque pessoal no tema. Na sequência, Sanfona sentida (Dominginhos e Anastácia, 1973) e Sete meninas (Dominguinhos e Toinho Alves, 1975) reiteram a salutar intenção de renovação do repertório de Elba que pareceu pautar os criadores de Cordas, Gonzaga e afins, espetáculo que culmina com bloco de temas juninos em arremate que ainda pode ficar mais espontaneamente animado à medida em que o show ganhar chão na turnê nacional que vai passar por mais seis capitais do Brasil até novembro de 2014. No todo, Cordas, Gonzaga e afins devolve a Elba Ramalho o status de grande intérprete dos palcos. "Tanta gente canta, tanta gente cala". Sobre toda a estrada, pavimentada no Rio de Janeiro há 40 anos, paira a monstruosa força dessa voz que ainda arde.

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