Elba Ao Vivo

1990

Elba Ao Vivo
    • Feitiço de Gafieira (Tadeu Mathias / Jaguar) Letra


      Pra que falar de tristeza

      Galo cantou, diz que vem

      Na barra do dia sorrindo

      A manhã, ser feliz

      Vem que tem

      Fuzuê na gafieira

      Rela, rela que aí vem

       

      Banquete de signos

      (Zé Ramalho)


      Discutir o cangaço com liberdade

      É saber da viola, da violência

      Descobrir nos cabelos inocência

      É saber da fatal fertilidade

       

      Descobrir a cidade na natureza

      Descobrir a beleza dessa mulher

      Descobrir o que der boniteza

      Na peleja do homem vier, quando vier

       

      Descobrir o bagaço dos engenhos

      No melaço da cana mais um beijo

      Descobrir os desejos que não tem cura

      Saracura do brejo da novena

       

      Descobrir a serena da natureza

      Descobrir a beleza dessa mulher

      Descobrir o que der boniteza

      Na peleja do homem vier, quando vier

       

      Jogo de cintura

      (Nando Cordel)


      Você tem que ter

      Jogo de cintura

      Olho na mistura

      Não, não se incomodar

      De vez em quando nessa vida

      A gente engole um caô

       

      Pra se arrumar, pra se arrumar

      Pra namorar, pra namorar

      Pra ser feliz, pra ser feliz

      Pra ter amor

       

      E a ô

      Isso aqui vai melhorar

      E a ô

      Se a gente se enganchar

      E a ô

      Era bom que fosse já

      Você quer, eu também quero

      Tá faltando começar

       

       

      Brasil

      (Benedito Lacerda / Aldo Cabral)


      Brasil, és o meu berço dourado

      O índio civilizado e abençoado por Deus

      Brasil, gigante de um continente

      És terra de toda gente

      Orgulho dos filhos teus

       

      Feitiço de gafieira

      (Tadeu Mathias / Jaguar)


      Mas pra que falar de tristeza

      Galo cantou, diz que vem

      Na barra do dia sorrindo

      A manhã, ser feliz

      Vem que tem

      Fuzuê na gafieira

      Rela, rela que aí vem

       

      Mais um chorinho

      Meu amor balançadinho

      Vem dançar com esse jeitinho

      Que é meu e de mais ninguém

       

      Me enrosca toda

      Me dá um abraço

      Acerta o passo da minha paixão

      Parece até, ah, um descompasso

      Batendo no meu peito, no meu coração

       

      Quero bem tanto de você

      Quero no ponto

      Me deixa tonto de amor beber

      No céu a lua se derrete em pranto

      Chorando de inveja d’ocê


    • Pau-de-Arara (Vinheta) (Guio de Morais / Luiz Gonzaga) Letra


      Quando eu vim do sertão seu moço

      Do meu Bodocó

      A maleta era o saco

      O cadeado era um nó

      Só trazia a coragem e a cara

      Viajando num pau-de-arara

      Eu penei, mas aqui cheguei

      Viajando num pau-de-arara

      Eu penei, mas aqui cheguei


    • Filho das índias (Vinicius Cantuária) Letra


      Irupixuna batiê, ela dançava

      Filho das índias

      Irupixuna batiê, ela dançava

      Filho das índias

       

      A volta dos trovões

      (Bráulio Tavares / Fubá)


      Um tambor amedrontou a mata

      Quando o dia clareou

      Na clareira respondeu a flauta

      Um aviso de terror

       

      Um cacique descobriu pegadas

      De um estranho caçador

      Uma tribo foi exterminada

      Onde o rio avermelhou

       

      Antes das chuvas

      Quando o trovão tombou das estrelas

      E a selva escura

      Viu brilhar nas mãos de um deus

      Armas de estrondo e luz

      Como avisou a lenda

      Armas de estrondo e luz

       

      Onça negra caminhou nas cinzas

      Da fogueira que passou

      Gavião voando contra a brisa

      Viu a mancha do trator

       

      Sobre o chão onde os pajés dançavam

      Uma vila se formou

      Todo dia longe ressoava

      O machado lenhador

       

      Dentro da selva

      Pulsam os corações dos guerreiros

      Esperando a noite

      Em que os astros vão trazer

      A volta dos trovões

      Como promete a lenda

      A volta dos trovões

       

      Um índio (texto)

      (Caetano Veloso)


      Um índio descerá

      De uma estrela colorida brilhante

      De uma estrela que virá

      Numa velocidade estonteante

      E pousará no coração do hemisfério sul

      Na América, na América

      Na América, num claro instante


    • Imaculada (Ary Sperling / Aldir Blanc) Letra


      Meu castelo é a casa da fazenda

      Onde teço a minha lenda

      Sei, meu príncipe virá

      Esse sonho bom que me alimenta

      A espera é menos lenta

      Se o desejo delirar

       

      Eu prefiro assim

      Pois com essa espera

      Domo a fera que há em mim

      É imaculada a semente do prazer

      Rosa ardente por florescer

       

      A criança deixa o paraíso

      Fadas, córregos, sorrisos

      A pureza virginal

      Planta no seu seio adolescente

      A maçã e a serpente

      Do pecado original

       

      Quero ser mulher

      No lugar e hora que meu príncipe quiser

      E assim conquistada pela espada do querer

      Continua a ser imaculada


    • Miss Celie's blues (Quincy Jones / Rod Temperton / Lionel Richie) Letra


      Sister, you’ve been on my mind

      Oh sister, we're two of a kind

      So, sister, I'm keepin’ my eye on you

      I betcha think I don't know nothin’

      But singin’ the blues, oh, sister

      Have I got news for you, I’m something

      I hope you think that you’re something too

       

      Scufflin’, I been up that lonesome road

      And I seen a lot of suns going down

      Oh, but trust me

      No-o low life's gonna run me around

       

      So let me tell you something sister

      Remember your name, no twister

      Gonna steal your stuff away, my sister

      Sho’ ain’t got a whole lot of time

      So-o-o shake your shimmy sister

      ‘Cause honey this Shug

      ‘Cause honey

      ‘Cause honey this Shug is feelin’ fine


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    • Tango de Nancy (Chico Buarque / Edu Lobo) Letra


      Quem sou eu para falar de amor

      Se o amor me consumiu até a espinha

      Dos meus beijos que falar

      Dos desejos de queimar

      E dos beijos que apagaram

      Os desejos que eu tinha

       

      Quem sou eu para falar de amor

      Se de tanto me entregar

      Nunca fui minha

      O amor jamais foi meu

      O amor me conheceu

      Se esfregou na minha vida

      E me deixou assim

       

      Homens eu não fiz a soma

      De quantos rolaram no meu camarim

      Outras chegaram a Roma passando por mim

      Ela de braços abertos fazendo promessa

      Meus deuses, enfim!

      Eles gozando depressa

      Cheirando a gim

       

      Eles querendo na hora

      Por dentro, por fora

      Por cima e por trás

      Juro por Deus de pés juntos

      Que nunca mais


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    • Las Muchachas de Copacabana (Chico Buarque) Letra


      Se o cliente quer rumbeira, tem

      Com tempero da baiana

      Somos las muchachas de Copacabana

      Somos las muchachas de Copacabana

       

      Cubanita brasileira tem

      Com sombreiro à mexicana

      Somos Las Muchachas de Copacabana

      Somos Las Muchachas de Copacabana

       

      “Mamãe

      Desculpa meus erros de caligrafia

      Lembrança da filha

      Que brilha aqui na capital

      É uma estrela internacional

      Tua filha na capital

      É uma estrela internacional”

       

      Quer uma amazona, o gringo tem

      Um domingo com a havaiana

      Somos las muchachas de Copacabana

      Somos las muchachas de Copacabana

       

      Se quer uma pecadora, tem

      Uma loura muçulmana

      Somos las muchachas de Copacabana

      Somos las muchachas de Copacabana

       

      “Mamãe

      Pro mês eu lhe mando umas economias

      Lembrança da filha

      Que brilha aqui na capital

      É uma estrela internacional

      Tua filha na capital

      É uma estrela internacional”

       

      Atração da Martinica, tem

      Uma chica sergipana

      Paraguaia da Jamaica, tem

      Balalaica peruana

      Corcovado em Mar del Plata, tem

      Catarata de banana

      Índia canibal, na certa tem

      É oferta da semana

      Somos las muchachas de Copacabana

      Somos las muchachas de Copacabana


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    • Ouro Puro (Cecílio Nena / César Rossini) Letra


      Seu amor é uma luz

      É um brilho no escuro

      Ouro puro, ouro puro

      Tô gamado em você

       

      Você me assanha, me acende

      Me deixa em apuros

      Ouro puro, ouro puro

      Você me dá prazer

       

      Me faz brilhar

      Todo o meu querer

      Quando estou no seu corpo

      Suado queimando de paixão

       

      Vem lapidar

      Vem se derreter

      Quero banhar no teu beijo

      Te dar com desejo o meu coração

       

      A vida inteira te amar

      Ouro puro

      A vida inteira te namorar

      Ouro puro

       

      A vida inteira te beijar

      A vida inteira me entregar

      A vida inteira te beijar

      A vida inteira me entregar


      FICHA TÉCNICA:

    • Doida (Nando Cordel) Letra


      Ô, ô, ô, ô

      Ô, ô, ô, ô, ô

      Me saculeja, me beija

      Me dá teu calor

       

      Doida, muito doida eu sou

      Pelo teu amor

      Doida, muito doida eu tô

      Pelo teu amor

       

      Vem mexer comigo

      Pra ver meu fogo te ascender

      Vem rolar comigo

      Se lambuzar no meu prazer

      Te dou carinho, te faço um dengo

      Deixo a fim

      Te faço tudo

      E você só faz gostar de mim

       

      Vê estrelas

      (Nando Cordel)


      É hoje que a gente vê

      Estrelas

      É hoje que a gente faz

      Amor

       

      Que bom, que bom querer

      Você

      Que bom, que bom querer

      Você


      FICHA TÉCNICA:

    • Veja (Margarida) (Vital Farias) Letra


      Veja você, arco-íris já mudou de cor

      E uma rosa nunca mais desabrochou

      E eu não quero ver você

      Com esse gosto de sabão na boca

       

      Arco-íris já mudou de cor

      E uma rosa nunca mais desabrochou

      E eu não quero ver você

      Eu não quero ver

       

      Veja meu bem

      Gasolina vai subir de preço

      E eu não quero nunca mais seu endereço

      Ou é o começo do fim ou é o fim

       

      Eu vou partir

      Pra cidade garantida, proibida

      Arranjar meio de vida, Margarida

      Pra você gostar de mim

       

      E essas feridas da vida, Margarida

      Essas feridas da vida, amarga vida

      Pra você gostar

      (Pra você gostar de mim)


      FICHA TÉCNICA:

    • Beatriz (Edu Lobo / Chico Buarque) Participação Especial: Tadeu Mathias Letra


      Olha

      Será que ela é moça

      Será que ela é triste

      Será que é o contrário

      Será que é pintura

      O rosto da atriz

      Se ela dança no sétimo céu

      Se ela acredita que é outro país

      E se ela só decora o seu papel

      E se eu pudesse entrar na sua vida

       

      Olha

      Será que ela é louça

      Será que ela de éter

      Será que é loucura

      Será que é cenário

      A casa da atriz

      Se ela mora num arranha-céu

      E se as paredes são feitas de giz

      E se ela chora num quarto de hotel

      Se eu pudesse entrar na sua vida

       

      Sim

      Me leva para sempre Beatriz

      Me ensina a não andar

      Com os pés no chão

      Para sempre, é sempre por um triz

      Diz quantos desastres tem na minha mão

      Diz se é perigoso a gente ser feliz

       

      Olha

      Será que é uma estrela

      Será que é mentira

      Será que é comédia

      Será que é divina

      A vida da atriz

      Se ela um dia despencar do céu

      E se os pagantes exigirem bis

      E se o arcanjo passar o chapéu

      E se eu pudesse

      Ah, se eu pudesse entrar na sua vida


      FICHA TÉCNICA:

    • Marim dos Caetés (Alceu Valença) Letra


      O artista precisa aparecer. Não porque ele seja melhor do ninguém. Mas porque o artista é transparente. E através da sua transparência a gente pode enxergar o mundo. E o mundo precisa aparecer também.

       

      Não chore menina bonita

      Se Deus quiser

      Te vejo na Marim guerreira dos Caetés

      De novo pra subir ladeiras

      Te dou, te dou meus pés

      Olinda, Marim tão bonita dos Caetés

       

      Vamos embora cabra cabriola

      Tá chegando a hora da gente arribar

      Vamos simbora, já fui caipora

      No jogo da sorte sempre dei azar

       

      Vamos simbora, sei do itinerário

      Por ali passamos, por aqui passou

      Uma La Ursa da fita amarela

      Abrindo janelas para o nosso amor


      FICHA TÉCNICA:

    • Popular Brasileira (Moraes Moreira / Fred Góes) Letra


      Foi pra Cuba dançar rumba

      Foi pras ilhas de lá, filha

      O Brasil foi levar

      Samba, frevos e maracatus

       

      Quem olhasse em seus olhos via

      A ciranda girando tinha

      Um sabor de mestiça pele

      Lembrança da Bahia

       

      Sapatilhas de ponta amor

      Fiz o chão e a cada passo

      Se você me levar eu vou

      Estreitar nossos laços

       

      Amizade e estima são

      Nordestina alegria sim

      Diz que tem, que tem solução

      Guerrilheira de mim

       

      É bonita, erudita

      Popular brasileira

      Deixe o vento levar o som

      Não tem fronteiras


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    • Nordeste Independente (Imagine o Brasil) (Bráulio Tavares / Ivanildo Vilanova) Letra


      Já que existe no sul esse conceito

      Que o nordeste é ruim, seco e ingrato

      Já que existe a separação de fato

      É preciso torná-la de direito

      Quando um dia qualquer isso for feito

      Todos dois vão lucrar imensamente

      Começando uma vida diferente

      De que a gente até hoje tem vivido

      Imagina o Brasil ser dividido

      E o Nordeste ficar independente

       

      Dividindo a partir de Salvador

      O nordeste seria outro país

      Vigoroso, leal, rico e feliz

      Sem dever a ninguém no exterior

      Jangadeiro seria o senador

      O cassaco de roça era o suplente

      Cantador de viola o presidente

      O vaqueiro era o líder do partido

      Imagina o Brasil ser dividido

      E o Nordeste ficar independente

       

      Em Recife o distrito industrial

      O idioma ia ser nordestinense

      A bandeira de renda cearense

      Asa Branca era o hino nacional

      O folheto era o símbolo oficial

      A moeda, o tostão de antigamente

      Conselheiro seria o inconfidente

      Lampião, o herói inesquecido

      Imagina o Brasil ser dividido

      E o Nordeste ficar independente

       

      O Brasil ia ter de importar

      Do nordeste algodão, cana, caju

      Carnaúba, laranja, babaçu

      Abacaxi e o sal de cozinhar

      O arroz, o agave do lugar

      O petróleo, a cebola, o aguardente

      O Nordeste é autossuficiente

      O seu lucro seria garantido

      Imagina o Brasil ser dividido

      E o Nordeste ficar independente

       

      Se isso aí se tornar realidade

      E alguém do Brasil nos visitar

      Nesse nosso país vai encontrar

      Confiança, respeito e amizade

      Tem o pão repartido na metade

      Tem o prato na mesa, a cama quente

      Brasileiro será irmão da gente

      Vai pra lá que será bem recebido

      Imagina o Brasil ser dividido

      E o Nordeste ficar independente

       

      Eu não quero com isso que vocês

      Imaginem que eu tento ser grosseiro

      Pois se lembrem que o povo brasileiro

      É amigo do povo português

      Se um dia a separação se fez

      Todos os dois se respeitam no presente

      Se isso aí já deu certo antigamente

      Nesse exemplo concreto e conhecido

      Imagina o Brasil ser dividido

      E o Nordeste ficar independente

       

      Povo do meu Brasil

      Políticos brasileiros

      Nunca pensem que vocês nos enganam

      Porque no fundo, no fundo

      Nosso povo não é besta!

       

       

      Asa Branca

      (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira)


      Qual fogueira de São João

      Eu perguntei a Deus do céu, ai

      Por que tamanha judiação

      Eu perguntei a Deus do céu, ai

      Por que tamanha judiação


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Neste seu primeiro disco ao vivo – gravado durante a turnê do show Popular brasileira, que vem percorrendo com imenso êxito as maiores capitais brasileiras – Elba tenta atender a todos aqueles que deleitosamente acompanham suas exibições no palco.

Porque não há como deixar de falar em prazer, sensualidade, força, garra, feminilidade e sabedoria quando se trata de Elba Ramalho. Com sua marca de energia agreste, suavizada por um fundo mergulho no que há de melhor e mais sofisticado na elaboração da música popular urbana, este disco parece ser uma celebração ao ar livre, um ritual pagão, que nos arrasta uma exaltação panorâmica da nossa música mais brasileira e popular.

Sempre sustentada por arranjos de primeira qualidade e uma banda irretocável, vamos sendo embalados por mambos, lambadas, rumbas, fox-baladas, samba-exaltação, melodiosas canções que relembram saraus, até o mais impetuoso forró, a mais deliciosa gafieira, o chorinho saltitante, o merengue devastador.

O disco de Elba é a história de nosso Brasil popular brincando com suas raízes latino-americanas e indígenas. Há citações de sobra, tanto nos arranjos que relembram velhos recursos da Rádio Nacional e que, retomando alguns clichês – na medida exata do compromisso entre a tradição e a transformação –, vão dando ampla sustentação à voz rascante de Elba. Ela nos embala em memórias de Ademilde Fonseca, já na primeira faixa do lado A, com Feitiço de gafieira, ou de Dalva de Oliveira, nos trinados do samba-exaltação Brasil, de Benedito Lacerda e Aldo Cabral.

É um Brasil vivo e gigante, não um gigante adormecido, o que Elba nos oferece. Há até mesmo o apelo ao nosso lado exótico e sofrido em toda a sequência índia, ainda no lado A (A volta dos trovões, sobretudo), onde os pontos de acentuação encontrados pela percussão rítmica deslocada vão criando um desenho originalíssimo e contundente. Algo que nos solicita a tristeza, a melancolia indígena, depois de ter nos remexido irresistivelmente no baião estilizado que é o Jogo de cintura. Quem não entender o que é remelexo, o enroscar das cadeiras, a umbigada e o deboche ternurento neste convite à dança, está irremediavelmente perdido, porque nunca mais vai saber o que é ser brasileiro.

Ainda no lado A temos a doçura de Imaculada, com sua insinuação de música a ser tocada em saraus de varanda com o dedilhado de um singelo violão e que por solução engenhosa do arranjador, transformou-se em música urbana. O sintetizador e o teclado eletrônico dão a essa faixa o som de uma grande orquestra, apesar de tudo intimista, devido ao toque lânguido do piano.

Em Miss Celie’s blues é a Billie Holiday quem arranha a voz de Elba, fazendo com que esta canção americana se nacionalize brasileira com o recurso virtuosístico do baixo elétrico, onde a maleabilidade e a flexibilidade, característica da música latina, transfiguram essa melodia de casa noturna nova-iorquina.

Afinal o escracho, a malevolência e a baderna dos sentidos! As Muchachas de Copacabana parecem saltar do vinil e invadir a nossa intimidade com sua irreverência e sensualidade. A intensidade da interpretação de Elba faria até o Chico Buarque balançar os quadris ao som desse mambo delirante.

Dando seguimento ao encontro das nossas raízes, é o sertão e a selva com a dança de salão, o baile popular urbano, a festa do corpo e da alma brasileira, Elba volta no lado B numa sequência de lambadas, que passa por Ouro puro, de Cecílio Mena e César Rossini, até desaguar em Doida e Vê estrelas, de Nando Cordel, autor também do fantástico Jogo de cintura, do lado A. A guitarra e o teclado eletrônico entraram na música brasileira associados à melodia nordestina desde a tropicália. Neste disco, através dos arranjos, é muito bem explorada a tônica nordestina pelo uso do modalismo (ou mixolídia, para os mais cultos musicalmente) e do ritmo afro, afoxé. É quando a melodia é tocada por todos os instrumentos, sempre sobre uma base de percussão afro, que mais agudamente ficamos envolvidos nessa celebração e criação coletiva, sempre acentuada pela presença das palmas de um coro de vozes afinadas, bem timbradas, com enorme segurança.

A parte instrumental do disco, em sua permanente competência, sustenta-se muito na qualidade dos teclados, do trompete, da percussão e da bateria. O tecladista dá apoio à seção rítmica, completando os espaços harmônicos ricos e fazendo dobramentos com os instrumentos de sopro. A percussão, presença singular e forte, acompanhada pela bateria envolvente e precisa, e ainda o trompete tocando preferencialmente nos registros mais altos, nos permitem viajar através desse encontro entre a grande orquestra urbana e a formação de banda de baile popular. Síntese perfeitíssima.

É nas faixas românticas do lado B, Beatriz, Veja (Margarida) e Marim dos Caetés, que a interpretação aberta, entregue, agrestemente pessoal de Elba, deixa sua singularidade evidente como excelente cantora. Ela sustenta notas com a mesma intensidade, até o final – recurso de interpretação a que o intérprete de música popular não se obriga. Além do mais, Elba ainda faz mudanças de timbre e empostação e voz. O resultado é que nos deparamos com uma grande cantora, personalíssima, nunca plagiando a si mesma, em constante ruptura e reconstrução.

O show de Elba, onde o disco foi gravado ao vivo, tem o nome da última faixa: Popular brasileira. Mas para definir Elba Ramalho neste seu último trabalho, vale a pena nos apropriarmos dos versos de Moraes Moreira e Fred Góes: “É bonita, erudita, popular brasileira. Deixa o vento levar o som, não tem fronteira”.

Elba de tão brasileira pode virar show da Broadway. Ela não tem fronteiras.

 

Paulo Moura

 

Gravar um disco sempre envolve muitos sentimentos. Já gravei 11 discos, sempre me entregando, mas por mais concentrada e emocionada que eu pudesse estar, estava entre as paredes de um estúdio. Sempre afirmei que o palco me fascina, que nele me sinto bem. A dor de barriga, o cansaço e todos os problemas desaparecem na hora do show.

Este será meu 12º disco e o primeiro ao vivo. Embora o processo de gravação seja mecânico e extremamente técnico, é o registro de muita energia, suor e de um momento único para mim: o êxtase que o público me proporciona.

Na verdade este disco é muito mais que um disco, é o meu último show, e não há como dissociar uma coisa da outra. Foi um espetáculo ousado, com a fantástica direção do Jorge Fernando, no qual eu repassava todos os meus shows anteriores. Uma superprodução onde eu tive que me superar sob todos os aspectos, inclusive fisicamente.

Torna-se até difícil explicar como um show que me leva à exaustão pode me dar prazer ao mesmo tempo. Trocar a tranquilidade, tecnologia e conforto de um estúdio pelo palco pode não ser muito sensato. Mas nunca foi tão bom gravar um disco como esse.

 

Elba Ramalho


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