Leão Do Norte

1996

Leão Do Norte
    • Onde Tu Tá Neném (Luis Bandeira) Letra


      Onde tu tá neném

      Eu vim te procurar

      Vamos fazer as pazes

      Tenho tantas frases pra te agradar

       

      Onde tu tá neném

      Eu vim te procurar

      Saudade sai me solta

      Estou aqui de volta pra meu bem beijar

       

      Estou aqui de novo junto ao meu povo

      Minha gente amiga

      Quem me conhece sabe

      Que eu detesto intriga

       

      Uma saudade enorme

      Come e deita e dorme no meu coração

      Remédio indicado pra quem está errado

      É pedir perdão

       

      Por uma briga à toa

      Quanta coisa boa a gente está perdendo

      Sertão em noite branca

      O dia amanhecendo

       

      Nossa conversa linda

      Tem segredo ainda para um século mais

      Não é pra nos gabar

      Mas não existe um par como nós dois se faz


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo e violas: Robertinho de Recife

      Sanfona: Zé Américo Bastos

      Baixo: Ciro Cruz

      Bateria: Renato Massa

      Percussão: Firmino e Paulinho He-Man

      Teclados: Luiz Antonio

      Vocais: Roberta Little, Lucy Louro, Valéria Mariano e Naná

    • Xodó Beleza (Cecéu) Letra


      Me lembro daquele tempo

      Quando a gente namorava

      No portão de casa, no portão de casa

      Ah, era aquele chameguinho safadinho, bonitinho

      Muito bem agarradinho no portão

      Ah, era aquele chameguinho safadinho, bonitinho

      Muito bem agarradinho no portão

       

      Meu bem por dentro e eu pelo lado de fora

      Ele dizia tá na hora e eu não, não

      Nosso namoro era xodó beleza

      Uma fogueira acesa dentro do meu coração

      Nosso namoro era xodó beleza

      Uma fogueira acesa dentro do meu coração

       

      E a gente continua com aquele namorinho

      Muito mais agarradinho

      Mão na mão

       

      Chega pra cá, meu bem me dá

      Vamos lembrar daquele tempo lá no portão

      Seu coração acelerava, o meu batia

      E a agonia se morria de paixão

       

      Nosso namoro era xodó beleza

      Uma fogueira acesa dentro do meu coração

      Nosso namoro era xodó beleza

      Uma fogueira acesa dentro do meu coração


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Zé Américo Bastos e Luiz Antônio

      Guitarra: Marquinhos

      Sanfona: Zé Américo Bastos

      Baixo: Jacaré

      Bateria: Renato Massa

      Percussão: Paulinho He-Man

      Teclados: Luiz Antonio

      Vocais: Roberta Little, Lucy Louro, Valéria Mariano, Naná, Marcelo Szabo e Elba Ramalho

    • Leão do Norte (Lenine / Paulo César Pinheiro) Participação especial: Lenine Letra


      Sou coração do folclore nordestino

      Eu sou Mateus e Bastião do boi bumbá

      Sou o boneco de mestre Vitalino

      Dançando uma ciranda em Itamaracá

       

      Eu sou o verso de Carlos Pena Filho

      Num frevo de Capiba

      Ao som da Orquestra Armorial

      Sou Capibaribe num livro de João Cabral

       

      Sou mamulengo de São Bento da Una

      Vindo num baque solto de um maracatu

      Eu sou um auto de Ariano Suassuna

      No meio da feira de Caruaru

       

      Sou Frei Caneca no Pastoril do Faceta

      Levando a Flor da Lira pra Nova Jerusalém

      Sou Luiz Gonzaga

      E eu sou do mangue também

       

      Eu sou mameluco

      Sou de Casa Forte

      Sou de Pernambuco

      Eu sou o Leão do Norte

       

      Sou Macambira de Joaquim Cardoso

      Banda da Pife no meio do carnaval

      Na noite dos tambores silenciosos

      Sou a calunga revelando o carnaval

       

      Sou a folia que desce lá de Olinda

      O Homem da Meia-Noite

      Eu sou puxando esse cordão

      Sou jangadeiro na festa de Jaboatão


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Robertinho de Recife e Lenine

      Violão: Lenine

      Sitar e guitar de 12 cordas: Robertinho de Recife

      Percussão: Firmino e Paulinho He-Man

      Teclados: Luiz Antonio

    • Chão de Giz (Zé Ramalho) Letra


      Eu desço dessa solidão

      Espalho coisas sobre um chão de giz

      Há meros devaneios tolos a me torturar

      Fotografias recortadas em jornais de folhas amiúde

      Eu vou te jogar num pano de guardar confetes

      Eu vou te jogar num pano de guardar confetes

       

      Disparo balas de canhão

      É inútil pois existe um Grão-Vizir

      Há tantas violetas velhas sem um colibri

      Queria usar, quem sabe, uma camisa de força

      Ou de Vênus

      Mas não vou gozar de nós apenas um cigarro

      Nem vou te beijar gastando assim o meu batom

       

      Agora pego um caminhão

      Na lona, vou a nocaute outra vez

      Pra sempre fui acorrentada no seu calcanhar

      Os meus vinte anos de boy, that’s over baby!

      Freud explica

      Não vou me sujar fumando apenas um cigarro

      Nem vou te beijar gastando assim o meu batom

      Quanto ao pano dos confetes

      Já passou o meu carnaval

      Isso explica porque o sexo é assunto popular

      No mais, estou indo embora

      No mais, estou indo embora, baby

      No mais, embora baby, no mais...

      No mais, estou indo embora, no mais...


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo e violão de aço: Zé Ramalho

      Violão de nylon: Geraldo Azevedo

      Sitar: Robertinho de Recife

      Violino: Paul de Castro

      Baixo: Jacaré

      Bateria: Renato Massa

      Teclados: Luiz Antônio

      Vocais: Elba Ramalho e Marcelo Szabo

    • Béradêro (Chico César) Letra


      Os olhos tristes da fita

      Rodando no gravador

      Uma moça cosendo roupa

      Com a linha do Equador

      E a voz da santa dizendo

      “O que é que eu tô fazendo

      Cá em cima desse andor?”

      E a voz da santa dizendo

      “O que é que eu tô fazendo

      Cá em cima desse andor?”

       

      A tinta pinta o asfalto

      Enfeita a alma motorista

      É cor na cor da cidade

      Batom no lábio nortista

      O olhar vê tons tão sudestes

      E o beijo que vós me nordestes

      Arranha-céu da boca paulista

      O olhar vê tons tão sudestes

      E o beijo que vós me nordestes

      Arranha-céu da boca paulista

       

      Cadeiras elétricas da baiana

      Sentença que o turista cheire

      E os sem amor e os sem teto

      Os sem paixão, sem alqueire

      No peito dos sem peito uma seta

      E a cigana analfabeta

      Lendo a mão de Paulo Freire

      No peito dos sem peito uma seta

      E a cigana analfabeta

      Lendo a mão de Paulo Freire

       

      A contenteza do triste

      Tristezura do contente

      Vozes de faca cortando

      Como o riso da serpente

      São sons de sins, não contudo

      Pé quebrado, verso mudo

      Grito no hospital da gente

      São sons de sins, não contudo

      Pé quebrado, verso mudo

      Grito no hospital da gente

       

      São sons, sons, são sons de sins

      São sons, são sons, são sons de sins

      São sons, sons de sins


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo, guitarra e sitar: Robertinho de Recife

      Percussão: Firmino e Luiz Antonio

      Vocais: Roberta Little, Lucy Louro, Valéria Mariano, Naná, Marcelo Szabo, Elba Ramalho e MC Jacaré

    • Treze de Dezembro (Luiz Gonzaga / Zé Dantas / letra: Gilberto Gil) Participação especial: Conjunto Época de Ouro e Dominguinhos Letra


      Bem que essa noite eu vi gente chegando

      Eu vi sapo saltitando

      E ao longe ouvi o ronco alegre do trovão

      Alguma coisa forte pra valer

      Tava para acontecer na região

      Quando o galo cantou, o dia raiou

      Eu imaginei

      É que hoje é treze de dezembro

      E a treze de dezembro nasceu Nosso Rei

       

      O nosso Rei do Baião, a maior voz do sertão

      Filho do sonho de D. Sebastião

      Como fruto do matrimônio

      Do cometa Januário com a estrela Santana

      Ao nascer da Era do Aquário

      No cenário rico das terras de Exu

      O mensageiro nu dos orixás

      É desse treze de dezembro que eu me lembrarei

      E sei que não me esquecerei jamais


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Conjunto Época de Ouro

      Sanfona: Dominguinhos

      Época de Ouro

      Violão: Cesar Faria

      Violão7 cordas: Dino 7 Cordas

      Bandolim: Ronaldo do Bandolim

      Violão: Toni

      Cavaquinho: Jorge Filho

      Pandeiro: Jorginho do Pandeiro

    • Na Base da Chinela (Jackson do Pandeiro / Rosil Cavalcanti) Letra


      Eu fui dançar um baile na casa da Gabriela

      Nunca vi coisa tão boa foi na base da chinela

      Eu fui dançar um baile na casa da Gabriela

      Nunca vi coisa tão boa foi na base da chinela

       

      O sujeito ia chegando tirava logo o sapato

      Se tivesse de botina, sola grossa, bico chato

      Entrava pra dançar no baile da Gabriela

      Tirando meia e sapato, calçando um par de chinela

       

      O baile estava animado só na base da chinela

      Toda a turma disputava dançar com a Gabriela

      Requebrar naquela base no salão só tinha ela

      Todos convidados riam gostando da base dela

      Jogaram no salão pimenta bem machucada

      O baile da Gabriela acabou com chinelada


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo e guitarras: Robertinho de Recife

      Sanfona: Zé Américo Bastos

      Baixo: Ciro Cruz

      Bateria: Renato Massa

      Percussão: Firmino

      Teclados: Luiz Antonio

      Clarinete: Juarez Araújo

      Vocais: Roberta Little, Lucy Louro, Valéria Mariano e Naná

    • Canoeiro (Dorival Caymmi) Letra


      Louvado seja Deus ó meu pai

      Louvado seja Deus ó meu pai

       

      Ô canoeiro bota a rede

      Bota a rede no mar

      Ô canoeiro bota a rede no mar

       

      Cerca o peixe, bate o remo

      Puxa a corda, colhe a rede

      Ô canoeiro puxa a rede do mar

       

      Vai ter presente pra Chiquinha

      Ter presente pra Iaiá

      Ô canoeiro puxa a rede do mar

       

      Iaiá me dá teu remo

      Teu remo pra mim remar

      O remo caiu, quebrou-se, mana

      Lá em alto mar


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Robertinho de Recife

      Violão: Lenine

      Baixo e guitarra: Robertinho de Recife

      Percussão: Firmino e Paulinho He-Man

      Vocais: Roberta Little, Lucy Louro, Valéria Mariano, Naná, Marcelo Szabo, Elba Ramalho e MC Jacaré

    • Parceiros das Delícias (Geraldo Azevedo / Capinan) Letra


      Amor

      Vem me tirar a sede

      Amor

      Vem me tirar da rede

      Amor

      Nem que seja das intrigas

      Vem me tirar

      Vem me botar na vida

       

      Amor

      Vem me tirar o cinto

      Amor

      Vem me tirar a pele

      Amor

      Nem que seja sem malícia

      Vem me tirar

      Vem me fazer carícia

       

      Vem me tirar

      Às vezes pra dançar

      Até me machucar, amor

      Vem me botar na rede

      Reviver a sede

      Vem me fazer aquele amor

      Parceiro das delícias

      Amor


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo e teclados: Luiz Antônio

      Violas: Robertinho de Recife

      Violão: Marquinhos

      Bateria: Renato Massa

      Percussão: Firmino e Paulinho He-Man

      Gaita: Milton Guedes

    • Eu Vou até Até de Manhã (Lauro Maia) Participação: Boca Livre Letra


      Oi, balancê, balançar

      Balança pra lá e pra cá

      Oi, balancê, balançar

      Balança pra lá e pra cá

       

      Eu vou até de manhã

      Só nesse balancear

      Eu vou até de manhã

      Só nesse balancear

       

      Quem balança com jeito há de gostar

      Dançando, dançando, não quer mais parar

      Quem balança com jeito há de gostar

      Dançando, dançando, não quer mais parar

       

      O camarada fica mole

      Fica mole, mole

      O camarada fica mole

      Fica mole, mole, mole

       

      Outro dia a charanga do Zequinha

      Tocou balancê a noite inteirinha

      Outro dia a charanga do Zequinha

      Tocou balancê a noite inteirinha

       

      O fole velho ficou rouco

      Ficou rouco, rouco

      O fole velho ficou rouco

      Ficou rouco, rouco, rouco


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo e teclados: Luiz Antônio

      Guitarra: Robertinho de Recife

      Sanfona: Zé Américo Bastos

      Baixo: Ciro Cruz

      Bateria: Renato Massa

      Percussão: Firmino

      Teclados: Luiz Antonio

    • Estrada do Canindé (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira) Letra


      Ai, ai, que bom

      Que bom, que bom que é

      Uma estrada e uma caboca

      Uma gente andando a pé

       

      Ai, ai, que bom

      Que bom, que bom que é

      Uma estrada e a lua branca

      No sertão de Canindé

       

      Artomóve lá nem se sabe

      Se é home ou se é muié

      Quem é rico anda em burrico

      Quem é pobre anda a pé

       

      Mas o pobre vê nas estrada

      O orvaio beijando as flor

      Vê de perto o galo campina

      Que quando canta muda de cor

       

      Vai moiando os pés nos riacho

      Que água fresca, Nosso Senhor!

      Vai oiando coisa a granel

      Coisas que pra mode ver

      O cristão tem que andar a pé


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Banda da Elba

      Guitarra: Marquinhos

      Baixo: Jacaré

      Sanfona: Cesinha

      Bateria: Renato Massa

      Percussão: Paulinho He-Man

    • A Paisagem (Manduka / Dominguinhos) Letra


      A paisagem quer te ver

      Na porta do meu carinho

      Entre nela sem bater

      Como a lua de mansinho

       

      Faça uso do querer

      Seja qual for o caminho

      Pois o rio que passa aqui

      Passou antes no vizinho

       

      O canto de um passarinho

      Mais ligeiro que uma pena

      Me açucara, me açucena

      Mesmo quando estou sozinha

       

      A saudade é um moinho

      Em seu giro me acena

      Eu comigo me enfarinho

      Mais conservo ela serena

      Eu comigo me enfarinho

      Mais conservo ela serena


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo e sanfona: Dominguinhos

      Violão: Marquinhos

      Baixo: Jacaré

      Bateria: Renato Massa

      Percussão: Paulinho He-Man

      Teclados: Luiz Antônio

    • Estrela Miúda (João do Vale / Luiz Vieira) Letra


      Estrela miúda que alumeia o mar

      Alumiá terra e mar

      Pra meu bem vir me buscar

      Há mais de um mês que ela não

      Que ela não vem me buscar

       

      A garça perdeu a pena

      Ao passar no igarapé

      Eu também perdi meu lenço

      Atrás de quem não me quer

       

      Estrela miúda que alumeia o mar

      Alumiá terra e mar

      Pra meu bem vir me buscar

      Há mais de um mês que ela não

      Que ela não vem me beijar

       

      A onda quebrou na praia

      E voltou correndo ao mar

      Meu amor foi como a onda

      E não voltou pra me beijar


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo, cavaquinho e violão: Robertinho de Recife

      Percussão: Firmino e Luiz Antônio

      Violão de 7 cordas: Dino

      Trombone: Lélio Penha

    • Sim, Foi Você (Caetano Veloso) Letra


      Sim

      Foi você quem não quis voltar

      Toda noite a saudade vem

      De verdade agora lhe procurar

       

      Como a mim

      Que a tristeza tem

      Para sempre perdido além do sorriso

      Já sem poder chorar

       

      Ah, nosso amor foi bom

      Foi de não se esquecer

      Foi tão bonito

      Foi para sempre

      E era de se esperar renascer

       

      Mas

      Foi você quem não quis voltar

      Toda noite a saudade vem

      De verdade agora

      Lhe procurar


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo e teclados: Luiz Antônio

      Violas: Robertinho de Recife

      Bateria: Renato Massa

      Percussão: Firmino

      Sax: Milton Guedes

    • Frevos Participação especial: Banda Pinguim (Recife) Letra


      Evocação

      (Nelson Ferreira)


      Felinto, Pedro Salgado

      Guilherme Fenelon

      Cadê seus blocos famosos?

      Bloco das Flores, Andaluzas

      Pirilampos, Apôis Fum

      Dos carnavais saudosos

       

      Na alta madrugada

      O coro entoava

      O tom da marcha regresso

      Que era um sucesso

      Dos tempos ideais

      Do velho Raul Morais

       

      Adeus, adeus minha gente

      Que já cantamos bastante

      Recife adormecia

      Ficava a sonhar

      Ao som da triste melodia

       

       

      Frevo nº 1 do Recife

      (Antônio Maria)


      Ai, ai, saudade

      Saudade tão grande

      Saudade que eu sinto

      Do Clube das Pás, dos Vassouras

      Passistas traçando tesouras

      Nas ruas repletas de lá

      Batidas de bumbo

      São maracatus retardados

      Que voltam pra casa cansados

      Com seus estandartes pro ar

       

      Que adianta se o Recife está longe

      E a saudade é tão grande

      Que eu até me embaraço

      Parece que eu vejo Walfrido Cebola no passo

      Haroldo Mathias, Colaço

      Recife está perto de mim

       

      Saudades que eu sinto

      São maracatus retardados

      Que voltam pra casa cansados

      Com seus estandartes pro ar

       

       

      Oh! Bela

      (Capiba)


      Você diz que ela é bela

      Ela é bela sim senhor

      Porém poderia ser mais bela

      Se ela tivesse o meu amor

      Meu amor

       

      Bela é toda natureza, ô bela

      Bela é tudo que é belo, ô bela

      O sorriso da criança

      O perfume de uma rosa

      O que fica na lembrança

       

      Belo é ver um passarinho, ô bela

      Indo em busca do seu ninho, ô bela

      Todo mundo se amando

      Com amor e com carinho

      Uns sorrindo, outros chorando de amor

      De amor

       

      Sou eu teu amor

      (Alceu Valença / Carlos Fernando)


      Lá vem, lá vem o bloco

      Mas cadê o bloco? Já passou

      Lá vem, lá vem o bloco

      Mas cadê o bloco? Já passou

       

      Um bloco veloz feito um raio

      Chamado Sou Eu Teu Amor

      Um bloco veloz feito um raio

      Chamado Sou Eu Teu Amor

       

      Por onde ele passa

      Sacode alegria a vapor

      Limão com cachaça

      Na onda do frevo esquentou

      Lá vem!

       

      Lá vem o bloco

      É um bloco que chega

      É um bloco que passa

      É um raio que rompe e que traça

      E a massa espanta a dor

      Lá vem

       

      Lá vem um bloco

      Chamado Sou Eu Teu Amor

      Lá vem um bloco

      Chamado Sou Eu Teu Amor


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo de metais: Juarez Araújo

      Arranjo de base: Banda Pingüim

      Metais: Juarez Araújo, Mazinho, Roberto Stepheson, Toti Cavalcanti, Altair Martins, Sueli Faria e Leilo Penha

      Violas e guitarra portuguesa: Robertinho de Recife

      Pandeiro: Firmino

      Vocais: Roberta Little, Lucy Louro, Valéria Mariano e Naná

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Elba Ramalho: Leão do Norte

 

Elba Ramalho é a única cantora brasileira capaz de encarar com sabedoria, competência e sensibilidade um projeto como este. A verdade do nordeste corre no sangue dessa paraibana arretada e abraça o Brasil pela sua voz.

Neste significativo álbum em sua carreira, ela vai fundo na obra de personagens de épocas diversas, responsáveis pela grandeza da música nordestina. Da mesma maneira que algumas dessas canções ainda podem estar se sedimentando, pois seus autores estão em plena produtividade, outras foram embaçadas pelo tempo, mas não se desligaram dos alto-falantes internos que ressoam na memória de muitos de nós. Elas representam o extrato, a fina flor da obra desses eméritos criadores do canto popular nascidos na região.

São os compositores ouvidos há anos nas rádios do Maranhão, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Bahia, nos auditórios das rádios cariocas, nos discos de 78 das eletrolas, nos LPs dos toca-discos e mais recentemente nos CDs dos players dos anos 90, nas FMs e MTVs. E durante anos ouvidas também nas festinhas, festonas e festejos, nos espetáculos, arrasta-pés,forrós, bailões, bares e barbearias, sorveterias e parquinhos, enfim, em todos os espaços coletivos ou individuais, onde a música tem um papel vital na celebração, no prazer, ou simplesmente na contemplação.

Foram eles, os compositores nordestinos, o ponto de partida do projeto. Sua obra foi esmiuçada até se chegar a um conjunto representativo para o perfil esfuziante da grande estrela, a intrépida Elba Ramalho. Leão do Norte, é pois, nos limites de um CD, uma antologia da música popular do nordeste dos últimos 50 anos.

 

Chico César (1964)

Em São Paulo, onde está desde 1985, o paraibano de Catolé do Rocha, Chico César, além de agitar os shows que conquistaram paulatinamente a moçada, participou de alguns festivais, onde nem sempre sua originalíssima proposta sonora e visual foi captada pelos jurados. A exceção é o Festival de Avaré, onde conquistou vários prêmios: segundo lugar com Dança em 1992, e o de melhor letra com o aboio Béradêro, terceira colocada, em 1991. O saudoso crítico Edmar Pereira seduziu-se com Chico César, sendo o primeiro jornalista do sul do país a saudá-lo em 1991 no Jornal da Tarde com “letrista que revela extraordinária agilidade verbal, da qual nenhum compositor de sua geração sequer se avizinha, compondo com uma exemplar economia de palavras, característica do grupo Jaguaribe Carne (que ele integrou em João Pessoa), influenciado pelos poetas concretistas da Semana de 22. Neste ano de 96 seu trabalho, tudo indica, ganha finalmente a merecida projeção nacional, reconhecendo-se em Chico César a maior revelação da música nordestina nesta década.

 

Luiz Gonzaga (1912-1989)

O patriarca da música nordestina foi um dos mais profundamente identificados com seu povo. Sob sua influência incomparável, estão abrigados quase todos os músicos e cantadores do Nordeste, que veem Gonzaga como seu grande mestre, responsável direto pela vida artística que decidiram levar, e mais tarde, pelos ensinamentos, que lhes deu o sentido do autêntico utilizado em suas obras. Gonzaga foi o Rei do Baião, o pai dos sanfoneiros, o grande herói musical do Nordeste, despertando para a música dessa região a admiração incondicional dos outros estados do país. Ao lado de Pixinguinha, que o antecedeu, e Tom Jobim, que veio depois, Luiz Gonzaga forma o tripé básico da história da música popular brasileira. Teve dois parceiros de marcante expressão: Zé Dantas e Humberto Teixeira, com quem compôs a maioria dos clássicos de sua admirável obra. Estrada do Canindé, uma das obras primas da dupla, foi gravado em dezembro de 1950, num disco de 78 rotações lançado em março do ano seguinte, e foi a eleita por Elba para reverenciar seu mestre.

 

Capiba (1904-1997)

Embora tenha uma vastíssima obra, em boa parte instrumental, embora tenha sido pianista e fundador da célebre Jazz Band Acadêmica de Recife, Capiba não estudou música. Desde 1931 seus versos e melodias fazem parte do que se canta e dança no estado de Pernambuco, principalmente durante o carnaval. Dotado de grande energia, espalhou suas atividades artísticas em todas as direções incluindo a de cantor apesar de problemas de foniatria. Mas foi como compositor que Capiba se tornou um símbolo, um monumento vivo da cidade de Recife, da música pernambucana, e em consequência, do frevo. Maria Bethânia e A mesma rosa amarela, dois sucessos nacionais de Capiba, são de certa forma exceção nas suas composições, quanto ao gênero. O frevo domina sua obra, e um dos mais inspirados é Oh! Bela, que surgiu em 1970 e até hoje é uma mola propulsora nos carnavais de Pernambuco.

 

Lauro Maia (1913-1950)

Certamente o mais ilustre compositor cearense de seu tempo, Lauro Maia era advogado, foi diretor da Ceará Rádio Clube, grande em diferentes gêneros musicais, além dos ritmos nordestinos. Entre 1945 e 1950, quando morava no Rio, atuando eventualmente como pianista, teve músicas incluídas no repertório de Orlando Silva, Carmélia Alves e Ciro Monteiro, e especialmente do conjunto Quatro Azes e um Curinga, cinco cearenses que tiveram enorme popularidade nessa época, e foram responsáveis pela divulgação de sua obra. Começando por Eu vi um leão (1942), seguido de Trem de ferro (1944), Eu vou até de manhã (1945), considerado a primeira gravação de um ritmo criado por dois compositores dos Vocalistas Tropicais, o balanceio. Aconselhado por Dorival Caymmi, Lauro Maia resolvera investir nesse novo ritmo, um baião com ares de sertanejo, que acabou carimbando seu trabalho como compositor nordestino. Elba convidou o excelente grupo Boca Livre para recriar o balanceio de Lauro Maia como no original, com um conjunto vocal.

 

Rosil Cavalcanti (1913-1968)

O criador do popularíssimo programa de rádio de Campina Grande, O forró de Zé Lagoa, que permaneceu 22 anos nas rádios Cariri e Borborema, foi uma das personalidades mais queridas em sua região. Rosil tomava partido político em favor dos pobres, fazia denúncias, criava personagens e divulgava os artistas populares, cordelistas, sanfoneiros e cantadores. Tornou-se conhecido como compositor principalmente através de Jackson do Pandeiro, com quem formou em 1942 a dupla Café com Leite, que se apresentava na Rádio Tabajara de João Pessoa, e se desfez quando Jackson foi para Recife. Rosil foi para Campina Grande, mas ambos mantiveram a ligação através de suas criações, de fundamental importância no repertório de Jackson, como o clássico Sebastiana. Ambos só tocavam instrumento de percussão, e faleceram no mesmo dia 10 de julho, com 14 anos de diferença.

 

Antônio Barros (1930) e Cecéu (1950)

Nascido em Campina Grande, Antônio começou a compor em 1953, vendo gravadas suas primeiras músicas por Genival Lacerda e Jackson do Pandeiro em 57. Morou em Recife nos anos 60 e no Rio nos 70, onde conheceu Cecéu, sua companheira de vida e de música, formando até a dupla Tony e Mary com um LP. Um legítimo representante do mais puro forró nordestino com agudo poder de observação, Antônio Barros obteve sucesso nacional na década de 70, a partir de Procurando tu, gravada originalmente pelo Trio Nordestino e logo em seguida, em mais de 30 regravações que hoje chegam perto de uma centena. Sua obra começa a ser gravada por Elba Ramalho em 82, com o estouro de Bate coração e Amor com café, recolocando-o na parada apenas um ano depois de Homem com H. Para esta antologia, ela escolheu Xodó beleza, de 87, lembrando o tempo da inocência do namoro no portão.

 

Jackson do Pandeiro (1919-1982)

Até hoje não surgiu na música brasileira alguém com tamanha capacidade de invenção rítmica como o paraibano José Gomes Filho, o admiradíssimo cantor e ritmista Jackson do Pandeiro. Seu balanço contagiante foi recheado de instintivas invenções enriquecedoras sob as mais diversas formas: retardos e antecipações, redobradas e desdobradas, contrações, breques, acentuações, pausas, pontuações, ligaduras, enfim novos desenhos rítmicos inexistentes nos originais, proporcionando uma aula de interpretação sincopada em cada música das que deixou gravadas. Com Luiz Gonzaga forma a dupla mais admirada e influente da música nordestina, um grande contraste com a inacreditável humildade que pautou sua vida artística. Foi ainda um showman inigualável com seu “lenço da sorte” no pescoço, o chapeuzinho de banda e os passos e umbigadas que faziam o povo gargalhar. Jackson foi realmente um tipo único que enchia de alegria e prazer quem o visse no palco. Viveu grande parte de sua vida no Rio de Janeiro, sempre muito solicitado para gravações, mas como pandeirista, uma pequena parcela de sua estrutura como artista. Como compositor, teve em Rosil, amigo e companheiro musical, seu parceiro mais frequente. Na base da chinela, que ele próprio já gravara, e com o qual Elba homenageia mais uma vez um de seus maiores ídolos, representa bem o talento dessa dupla do barulho, Jackson e Rosil.

 

Luís Bandeira (1923-1998)

Como tantos outros talentos que trabalharam na Rádio Clube de Pernambuco nos anos 40, o recifense Luís Bandeira foi ativo radialista como violonista, radioator e integrante do conjunto vocal Garotos da Lua. No Rio, desde 1950, onde também atuou em rádio, foi cantor, realizando uma carreira paralela como compositor iniciada em 51. São de sua autoria O apito no samba, frevos como Carabina, do repertório da Orquestra Tabajara e parcerias com Luís Vieira e João do Vale. Nos anos 60, fez parte da Caravana da Música Popular Brasileira criada por Humberto Teixeira, e que promoveu a música popular no exterior. Onde tu tá, neném foi gravado por Luiz Gonzaga em 1977.

 

Luiz Vieira (1928)

Ainda menino, o pernambucano Luiz Vieira veio para o Rio, iniciando-se como cantor com menos de 20 anos, ao ingressar em rádio, na área de programas dedicados aos nordestinos. Atuou como cantor e apresentador sucessivamente na Rádio Tupi, TV Tupi, TV Record e TV Excelsior, onde seu show semanal ao vivo, com plateia, teve popularidade nacional. Com isso, suas composições foram bastante divulgadas, e canções como Inteirinha, Menino de Braçanã, Menino passarinho e Paz do meu amor, baiões como Paroliando, e toadas como Os olhos do menino, tornaram-se clássicos que ganharam outras interpretações gravadas. Luiz também gravou-as, mais de uma vez até, bem como as brilhantes parcerias que fez com João do Vale: Na asa do vento e Maria Filó.

 

João do Vale (1934-1996)

O notável autor de Carcará é um homem rude, sofrido e sensível além de um dos mais emocionantes observadores da paisagem e da vida nordestina. Maranhense, trabalhou em empregos braçais, ao mesmo tempo que temperou sua atividade artística com uma comovente produção do mais elevado nível. Depois de sua atuação no show Opinião (1964) ao lado de Nara Leão e depois Maria Bethânia, começou a ser reconhecido no país através de sua voz tosca, fora do tom por vezes, mas com uma brutal carga de realismo. Sua obra é simplesmente magnífica, reconhecida pelos maiores artistas brasileiros que já participaram de dois discos seus como convidados. Entre esses admiradores incondicionais estão Chico Buarque, Tom Jobim, Paulinho da Viola, além do Nordeste em peso, é claro. Elba escolheu Estrela miúda, uma parceria com Luiz Vieira, gravada pela primeira vez em 1953 por Marlene, num disco onde seu nome foi grafado João Vales.

 

Nelson Ferreira (1902-1976)

Tem o perfil da maioria dos clássicos compositores de frevo pernambucano, pois, estudou música, tocou em orquestra, e consequentemente, escreve o que cria. Respeitadíssima personalidade no Recife, onde atuou como líder/arranjador/diretor de rádio desde os anos 20, Nelson é o patrono de uma geração de chefes de orquestra e arranjadores responsáveis pela qualidade e abundância de composições de cunho instrumental de Pernambuco e estados vizinhos. Essa obra que o sul do país conhece vagamente é a essência do frevo, uma forma musical contagiante, cuidadosamente elaborada sobre princípios técnicos, regravada nesta antologia por uma sequência de quatro exemplos. Evocação número 1 foi um retumbante sucesso carnavalesco em 1957, embora mal gravado tecnicamente na Mocambo. Nada disso impediu que o frevo passasse a ser quase um hino com suas evocações que sensibilizam quem já foi arrastado alguma vez pelo frevo em Olinda ou no Recife.

 

Antonio Maria (1921-1964)

Muito mais conhecido como autor dos sambas-canções que embalavam a intensa vida noturna das boates do Rio de Janeiro nos anos 50; como aguçado e badalado cronista da talentosa imprensa carioca da época; ou ainda como radialista ligado ao futebol, o Menino Grande, Antonio Maria, também compôs frevos. Três apenas, e com o mesmo título, diferindo apenas pelos números: 1, 2 e 3 do Recife. Maria viveu intensamente os quarenta e poucos anos de sua vida, deixando uma obra marcada pelo decantado período das músicas compostas à mesa do bar. Veio ao Rio pela primeira vez para morar na companhia de outros pernambucanos, os “exilados nordestinos” que começavam, Fernando Lobo, Augusto Rodrigues, Teófilo de Barros Filho e Abelardo Chacrinha Barbosa, também quatro expoentes. Sua obra confessional é recheada de clássicos: Manhã de carnaval, Ninguém me ama, Valsa de uma cidade, Suas mãos. O Frevo número 1 do Recife foi gravado pelo Trio de Ouro em 1951.

 

Carlos Fernando (1942-2013)

Um dos compositores de frevo da nova geração, Carlos Fernando iniciou-se na música fazendo letra para Aquela rosa, em parceria com Geraldo Azevedo e arrebatando o Festival do Norte/Nordeste em 1967. Depois juntou-se também com Alceu, vindo gradativamente os três para o Rio entre 68 e 73. Mas foi nos anos 80 que ele se projetou como compositor e produtor através da vitoriosa série de discos de frevo Asas da América, que já chegou a 7 volumes. Nela foram reunidos medalhões e iniciantes na interpretação de frevos clássicos do passado e outros compostos especialmente para os discos. Carlos Fernando está no repertório de Elba desde seu primeiro LP em Canta coração (parceria com Geraldo), tendo tido seu maior êxito com Banho de cheiro em 83. Sou eu teu amor (parceria com Alceu) faz parte do volume 1 de Asas da América (1979) e é uma gravação histórica, pois reúne Gilberto Gil e Jackson do Pandeiro, em seu único encontro em disco.

 

Lenine (1959)

Seu tipo físico não é o que se espera de um pernambucano, loiro, de olhos verdes; mas sua música vigorosa é profundamente enraizada nos folguedos nordestinos – maracatu e caboclinhos. Começou a compor em 75, e desde que veio para o Rio, com 20 anos, foi paulatinamente sendo reconhecido como um dos melhores compositores do Nordeste em sua geração. Seus primeiros discos, em 83 e 84, não obtiveram grande repercussão, mas o que realizou com Marcos Suzano deixou bem nítido o estilo e a originalidade de seu trabalho, rendendo-lhes uma participação no Free Jazz. É nesse CD, Olho de peixe, que está Leão no norte, escolhida pela leonina Elba como uma das músicas que melhor representa os mais novos compositores do nordeste. É também o título desta antologia, remetendo ao estado de Pernambuco, ao símbolo totêmico do grupo de maracatu (ou Nação Africana) Leão Coroado, fundado em 1863.

 

Dominguinhos (1941-2013)

Com sua voz doce e serena, sua sanfona suave eximiamente tocada, Dominguinhos sempre foi um artista que falou direto ao coração de sua gente. Trata a melodia com delicadeza, canta com respeito sem querer competir com o compositor, que pode até ser ele. Num forró tem um punch irresistível. Natural de Garanhuns, ele teve anos de estrada como músico de baile, dos grandes regionais do Rio desde os anos 60, quando começou a gravar a imensa série de discos sob seu nome. Foi reconhecido nacionalmente com Eu só quero um xodó, lançado por Gil em 73. Dominguinhos é um frequentador assíduo do repertório de Elba Ramalho desde De volta pro aconchego (1985). Nesta antologia, uma das duas músicas inéditas, com destino traçado: A paisagem, parceria com Manduka.

 

Dorival Caymmi (1914-2008)

A naturalidade parece ser o que Caymmi mais buscou e alcançou em suas cento e poucas composições, que representam o conjunto mais condensado de obras primas da música brasileira. Historicamente o primeiro baiano a se consagrar no sul, Caymmi é o charme personificado, o homem sábio que não abre mão da sua própria velocidade para viver. Admirado e honrado no seu Brasil e no exterior, trouxe para o Rio em 1938 a sedução da Bahia através de seu canto, seu violão e suas “cançõezinhas” primorosamente simples e bem acabadas. Escolher só uma delas para uma antologia é garantia de malogro. Canoeiro, também intitulada Pescaria, é uma canção praieira gravada pelo Trio de Ouro em 1944, e sucessivamente por Caymmi (54), Marlene (58) e outros. Recebeu nesta versão de Elba um tratamento percussivo totalmente original.

 

Gilberto Gil (1942)

Pode-se afirmar que Gilberto Gil é hoje o mais completo artista vivo da música brasileira. Superdotado para a arte, de uma musicalidade estonteante, Gil é um caso raro, não se podendo dizer quem é o melhor, o compositor, o letrista, o cantor, o violonista, o arranjador ou o performer. Vejo para o sul em 65 para se consagrar em três tempos, formando com Chico e Caetano o triunvirato máximo dos anos 60, em admirável produção ininterrupta há mais de 30 anos. A música de Gil em Leão do Norte é sua única parceria com Luiz Gonzaga. Em 1986, Gonzaga convidou vários artistas para comemorar seu 73º aniversário com uma festança em Exu. Na véspera tocou para Gil um requintado choro seu, gravado em fevereiro de 1953 no lado B de O xote das meninas. À noite, Gil fez uma letra saudando Gonzaga e deu-lhe de presente no dia seguinte, comemorando com música o 13 de dezembro. Dez anos depois é que Treze de dezembro é gravado pela primeira vez com letra, e a participação muito especial do decano regional Época de Ouro, valorizando ao máximo o maravilhoso presente que Gil deu, primeiro a Luiz Gonzaga, e agora a Elba Ramalho.

 

Caetano Veloso (1942)

Caetano tem o grande mérito de jamais repetir uma fórmula quando faz uma nova canção. Pelo contrário, seus vôos artísticos vão em busca do desconhecido e inexplorado, movido por uma combinação de inteligência, inquietação e talento em todas as direções da arte, inclusive às que não se dedica regularmente. Desde que veio para São Paulo e depois Rio, nos anos 60, tornou-se um dos mais adorados artistas do Brasil, cativando de paixão um público heterogêneo em todos os níveis. Assim também é sua obra, múltipla e imprevisível. Elba destacou uma velha canção gravada no começo de sua carreira por Gal Costa. Sim, foi você é de 1965.

 

Alceu Valença (1946)

No palco ele é um demônio. O imprevisível e divertido Alceu deixa você sem fala com suas idéias malucas que jorram em alta velocidade nas suas criações cênicas, ou suas interpretações que encarnam Jackson do Pandeiro, com quem dividiu o palco várias vezes. As composições de Alceu, quase sempre interpretadas por ele mesmo tal o cunho de personalidade que imprime, vão fundo no folclore. Contudo tem um aspecto contemporâneo, próprio de quem domina totalmente a ação de transformar uma inspiração numa obra de arte usando a linguagem de seu tempo. Um defensor destemperado do frevo, Alceu está nessa antologia logicamente na companhia dos outros pernambucanos do ritmo mais contagiante do Nordeste brasileiro.

 

Geraldo Azevedo (1945)

Foi o primeiro dos dois que veio para o Rio em 67 para tocar violão com Eliana Pittman. Em Recife, ele e Alceu formavam uma dupla de sucesso reunida de novo em 1970 dando origem a um LP em 72. Nascido em Petrolina, o romântico Geraldinho é excelente violonista, fértil compositor, tendo a garra produzida pelas adversidades que enfrentou: a pobreza no interior de Pernambuco, e no Rio, quando atuava politicamente contra o regime militar. Sua obra esmeradamente trabalhada, se espalha num leque de ritmos do Nordeste, maracatus e frevos, xotes e forrós, baiões e toadas, canções e cantigas. Elba grava suas composições desde o primeiro disco, tendo naturalmente alguns grandes sucessos como Canção da despedida. Para a antologia optou por uma canção de Geraldo em parceria com o grande letrista baiano José Carlos Capinan, Parceiro das delícias, gravada em 1988.

 

Zé Ramalho (1949)

Zé Ramalho é certamente o mais original personagem de sua geração na música nordestina. Sua figura messiânica encaixa-se como uma luva à voz cavernosa do fascinante declamador; com os temas apocalípticos tratados como cordel, prediletos em letras que atingem em cheio sua legião de admiradores; finalmente com a composição musical propriamente dita, calcada em andamentos agalopados e outras modalidades nordestinas perfeitamente adequadas a esse significativo conjunto do intérprete e suas músicas. Zé é de Brejo da Cruz, no interior da Paraíba, e está presente no repertório de Elba Ramalho (são primos) desde Ave de Prata, primeiro disco da cantora. Esse título é uma música de Zé. Igualmente foi no primeiro disco de Zé Ramalho que Elba localizou a música para Leão do Norte, aliás, uma canção que conhecia muito bem. Na gravação de Chão de giz (1978) o coro tinha cinco cantoras, e uma delas era Elba Ramalho.

 

Zuza Homem de Mello

Maio/96

 

Agradeço a todos que participaram deste trabalho. Músicos, técnicos, amigos... Um beijo pra Gilberto Gil, Lenine (que força, hem!?), Chico César, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e pro pessoal do Boca Livre (ficou lindo!).

Pra Dominguinhos vai um cheiro cheio de dengo.

Obrigada ao Conjunto Época de Ouro e aos doces meninos da Banda Pinguim de Recife. Palmas para o grande Robertíssimo de Recife, grande músico e produtor. Um beijo também pra Zuza Homem de Mello pela sua alma nordestina.

E a todos da BMG, pela fé.

Um abraço de luz pra Margareth Menezes, Fatinha, Marcelo e Luã.

Meu amor e alegria por estar viva e fazendo o que gosto!

Obrigada a Deus!

 

Elba Ramalho/96

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