Baioque

1997

Baioque
    • Baioque (Chico Buarque) Letra


      Quando eu canto que se cuide

      Quem não for meu irmão

      O meu canto, punhalada

      Não conhece o perdão

       

      Quando eu rio

      Quando eu rio, rio seco

      Como é seco o sertão

      Meu sorriso é uma fenda

      Escavada no chão

       

      Quando eu choro

      Quando choro é uma enchente

      Surpreendendo o verão

      É o inverno, de repente

      Inundando sertão

       

      Quando eu amo

      Quando amo, eu devoro

      Todo o meu coração

      Eu odeio, eu adoro

      Numa mesma oração

      Quando canto

       

      Mammy, não quero seguir definhando sol a sol

      Me leva daqui, eu quero partir

      Requebrando um rock’n’roll

      Não quero saber como se dança o baião

      Eu quero ligar, eu quero um lugar

      No sol de Ipanema, cinema e televisão


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Zé Ramalho

      Bateria: Renato “Massa”

      Baixo: Jacaré

      Acordeom: Zé Américo Bastos

      Percussão: Paulinho He-Man

      Teclados: Luiz Antônio

      Guitarra: Robertinho de Recife

    • Pavão Mysteriozo (Ednardo) Letra


      Pavão mysteriozo

      Pássaro formoso

      Tudo é mistério

      Nesse teu voar

      Ai, se eu corresse assim

      Tantos céus assim

      Muita história eu tinha pra contar

       

      Pavão mysteriozo

      Nessa cauda aberta em leque

      Me guarda moleque

      De eterno brincar

      Me poupa do vexame

      De morrer tão moço

      Muita coisa ainda quero olhar

       

      Pavão mysteriozo

      Pássaro formoso

      No escuro dessa noite

      Me ajuda a cantar

      Derrama essas faíscas

      Despeja esse trovão

      Desmancha isso tudo

      Que não é certo não

       

      Pavão mysteriozo

      Pássaro formoso

      Um conde raivoso

      Não tarda a chegar

      Não temas minha donzela

      Nossa sorte nessa guerra

      Eles são muitos

      Mas não podem voar


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo e acordeom: Zé Américo Bastos

      Bateria: Renato “Massa”

      Baixo: Jacaré

      Percussão: Paulinho He-Man

      Trompete: Chico Oliveira

      Sax: David Ganc

      Guitarra: Marcos Arcanjo

      Teclados: Luiz Antônio

      Viola de 12 cordas: Robertinho de Recife

      Vocais: Lucia Perez, Tadeu Mathias, Fabio Mondego e Roberta Little

    • S. O. S. (Raul Seixas) Letra


      Hoje é domingo

      Missa e praia, céu de anil, tem sangue no jornal

      Bandeira na avenidasil

      Lá por detrás da triste linda zona sul

      Vai tudo muito bem

      Formigas que trafegam sem por quê

      E da janela desses quartos de pensão

      Eu, como vetor

      Tranqüilo eu tento uma transmutação

       

      Ô, ô seu moço

      Do disco voador

      Me leve com você

      Pra onde você for

       

      Ô, ô seu moço

      Mas não me deixe aqui

      Enquanto eu sei que tem

      Tanta estrela por aí

       

      Andei rezando para totens e Jesus

      Jamais olhei pro céu

      Meu disco voador, além

      Já fui macaco em domingos glaciais

      Atlantas colossais

      E eu não soube como utilizar

      E nas mensagens que nos chegam sem parar

      Ninguém pode notar

      Estão muito ocupados pra pensar

       

      Pai nosso, que estais nos céus

      Santificado seja o Vosso nome

      Venha a nós o Vosso reino

      Seja feita a Vossa vontade

      Assim na terra como no céu

      O pão nosso de cada dia nos dai hoje

      Perdoai as nossas ofensas

      Assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido

      Não nos deixeis cair em tentação

      Mas livrai-nos do mal

      Amem.


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Zé Ramalho

      Arranjo de detalhes e guitarras: Robertinho de Recife

      Bateria: Renato “Massa”

      Baixo: Jacaré

      Percussão: Paulinho He-Man

      Violino: Paul de Castro

      Teclados: Luiz Antônio

    • Paralelas (Belchior) Letra


      Dentro do carro

      Sobre o trevo

      A cem por hora

      Ó meu amor

      Só tens agora os carinhos do motor

      E no escritório em que eu trabalho

      E fico rico

      Quanto mais eu multiplico

      Diminui o meu amor

       

      Em cada luz de mercúrio

      Vejo a luz do teu olhar

      Passa as praças, viadutos

      Nem te lembras de voltar

      De voltar, de voltar

       

      No Corcovado

      Quem abre os braços sou eu

      Copacabana

      Esta semana o mar sou eu

      Como é perversa a juventude

      Do meu coração

      E só entende o que é cruel

      O que é paixão

       

      E as paralelas

      Dos pneus na água das ruas

      São duas estradas nuas

      Em que foges do que é teu

      No apartamento, oitavo andar

      Abro a vidraça e grito quando o carro passa

      Teu infinito sou eu

      Sou eu, sou eu, sou eu


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo e violão: Paulinho Moska

      Bateria: Renato “Massa”

      Baixo: Jacaré

      Guitarra: Robertinho de Recife

      Teclados e arranjo de cordas: Luiz Antônio

      Cordas: Leo Ortiz, Glauco Fernandes, Jesuína Passarotto, Eduardo Pereira e Hugo Pilger

    • Vila do Sossego (Zé Ramalho) Letra


      Oh, eu não sei se eram os antigos que diziam

      Em seus papiros Papillon já me dizia

      Que nas torturas toda carne se trai

      E normalmente, comumente, fatalmente, felizmente

      Displicentemente o nervo se contrai

      Ô, ô, ô... com precisão

       

      Nos aviões que vomitavam pára-quedas

      Nas casamatas, casas vivas, caso morras

      Nos delírios meus grilos temer

      O casamento, rompimento, sacramento, documento

      Como um passatempo quero mais te ver

      Ô, ô, ô... com aflição

       

      Meu treponema não é pálido nem viscoso

      Os meus gametas se agrupam no meu som

      E as querubinas meninas rever

      O compromisso, submisso, rebuliço no cortiço

      Chamo o Padre Cícero para me benzer

      Ô, ô, ô... com devoção


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Zé Ramalho

      Guitarras: Robertinho de Recife

      Bateria: Renato “Massa”

      Baixo: Jacaré

      Percussão: Paulinho He-Man

      Teclados: Luiz Antônio

    • Vamos Fugir (Gilberto Gil / Liminha) Letra


      Vamos fugir

      Desse lugar, baby

      Vamos fugir

      Tô cansada de esperar

      Que você me carregue

       

      Vamos fugir

      Pra outro lugar, baby

      Vamos fugir

      Pra onde quer que você vá

      Que você me carregue

       

      Mas diga que irá

      Irajá, Irajá

      Pra onde o sol beijar você

      Você beijar o sol

      Marajó, Marajó

      Qualquer outro lugar comum

      Outro lugar qualquer

      Guaporé, Guaporé

      Qualquer outro lugar ao sol

      Outro lugar ao sul

      Céu azul, céu azul

      Onde haja sol

      Meu corpo nu junto ao seu corpo nu

       

      Vamos fugir

      Pra outro lugar, baby

      Vamos fugir

      Pra onde haja um tobogã

      Onde a gente escorregue

      Todo dia de manhã

      Flores que a gente regue

      Uma banda de maçã

      Outra banda de reggae

      Tô cansada de esperar

      Que você me carregue


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Banda Elba Ramalho

      Bateria: Renato “Massa”

      Baixo: Jacaré

      Percussão: Paulinho He-Man

      Trompete: Chico Oliveira

      Sax: David Ganc

      Guitarra: Marcos Arcanjo

      Teclados: Luiz Antônio

      Vocais: Lucia Perez, Tadeu Mathias, Fabio Mondego e Roberta Little

    • Zanzibar (Armandinho / Fausto Nilo) Letra


      No azul de Jezebel

      No céu de Calcutá

      Feliz constelação

      Reluz no corpo dela

      Ai tricolor colar

       

      Ás de maracatu

      No azul de Zanzibar

      Ali meu coração

      Zumbiu no gozo dela

      Ai, mina aperta a minha mão

      Alá meu only you

      No azul da estrela

      Ai, mina aperta a minha mão

      Alá meu only you

      No azul da estrela

       

      Aliás

      Bazar da coisa azul

      Meu only you

      É muito mais

      Que o azul de Zanzibar

      Paracuru

      O azul da estrela

      O azul da estrela


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Armandinho e Robertinho de Recife

      Guitarra: Luiz Brasil

      Percussão: Mingo Araújo

      Bandolim: Armandinho

      Baixo: Dadi

    • Os Argonautas (Caetano Veloso) Letra


      O barco, meu coração não agüenta

      Tanta tormenta, alegria

      Meu coração não contenta

      O dia, o marco, meu coração

      O porto, não

       

      Navegar é preciso

      Viver não é preciso

      Navegar é preciso

      Viver não é preciso

       

      O barco, noite no céu tão bonito

      Sorriso solto, perdido

      Horizonte, madrugada

      O riso, o arco da madrugada

      O porto, nada

       

      O barco, o automóvel brilhante

      O trilho solto, o barulho

      Do meu dente em tua veia

      O sangue, o charco, barulho lento

      O porto, silêncio


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Armandinho, Luiz Brasil, Robertinho de Recife, Elba Ramalho e Pepeu Gomes

      Guitarra portuguesa: Robertinho de Recife

      Bandolim: Armandinho

      Viola: Pepeu Gomes

      Vilão: Luiz Brasil

    • Relampiano (Lenine / Moska) Letra


      Tá relampiano, cadê neném?

      Tá vendendo drops no sinal pra alguém

      Tá relampiano, cadê neném?

      Tá vendendo drops no sinal pra alguém

      Tá vendendo drops no sinal, ninguém

       

      Todo dia é dia, toda hora é hora

      Neném não demora pra se levantar

      Mãe lavando roupa, pai já foi embora

      O caçula chora, mas há de se acostumar

      Com vida lá de fora do barraco

      Hay que endurecer um coração tão fraco

      Para vencer o medo do trovão

      Sua vida aponta a contramão

       

      Tudo é tão normal, todo tal e qual

      Neném não tem hora para ir se deitar

      Mãe passando roupa do pai de agora

      De um outro caçula que inda vai chegar

      É mais uma boca dentro do barraco

      Mais um quilo de farinha do mesmo saco

      Para alimentar um novo João Ninguém

      A cidade cresce junto com neném


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo e violão: Lenine

      Bateria: Renato “Massa”

      Baixo: Jacaré

      Acordeom: Dominguinhos

      Percussão: Paulinho He-Man

      Teclados: Luiz Antônio

    • Quando Chega o Verão (Dominguinhos / Abel Silva) Letra


      Quando chega o verão

      É um desassossego por dentro do coração

      Quem ama, sofre

      Quem não ama, sofre mais

      Sofre a menina, sofre o rapaz

      Sofre a menina, sofre o rapaz

      Sofre a menina, sofre o rapaz

      Sofre a menina, sofre o rapaz

       

      Canário que muda a pena, dói

      Amor que muda de penas, dói

      Canário que muda a pena, dói

      Amor que muda de penas, dói

       

      E tome xote Mariquinha

      E tome xote Sá Menina

      E tome xote

      E tome mais

      E tome xote Mariquinha

      E tome xote Sá Menina

      E tome xote

      E tome mais

       

       

      Até mais vê

      (Pedrinho / Primo)


      Se eu morasse aqui pertinho, nega

      Todo dia eu vinha te ver

      Te trazia um par de cheiro, nega

      Pra derramar em você

       

      Veste teu vestido, nega

      Vamos antes de chover

      Bota o teu vestido logo, nega

      Se tirar me dá prazer

       

      Quando chego no riacho

      Vou metendo a mão por baixo

      E arrancando um girassol

      E cantando um belo xote

      Dando beijo no cangote

      Por debaixo do lençol

       

      Lá se foi a lua cheia

      Já é meia noite meia

      Até logo até mais ver

      Se eu morasse aqui pertinho, nega

      Todo dia eu vinha te ver

      Se eu morasse aqui pertinho, nega

      Todo dia eu vinha te ver

       

       

      Pequenininha

      (Assisão)


      Quando a gente tem amor

      Não sabe onde ele está

      É uma saudade imensa

      A gente se agüenta

      E não quer chorar

       

      Tem dó pequenininha

      Tem dó pequenininha

      Tem dó

      Eu não quero chorar

       

      Mas quando a gente se vê

      É uma alegria sem fim

      A gente pega a saudade

      E manda ao longe assim


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Luiz Antônio e Dominguinhos

      Bateria: Renato “Massa”

      Baixo: Jacaré

      Acordeom: Dominguinhos

      Percussão: Paulinho He-Man

      Guitarra: Marcos Arcanjo

      Teclados: Luiz Antônio

      Vocais: Lucia Perez, Tadeu Mathias, Fabio Mondego e Roberta Little

    • A Música do Nosso Amor (Saul Barbosa / Jorge Portugal) Letra


      Luar de lua serena

      Céu de fogo iluminado

      Estrela de tanto brilho

      Fogueira assando milho

      Milho parecendo fogo

       

      A cidade era pequena

      Mas no coração cabia

      O tamanho da alegria

      Que a gente traduzia

      Como a música do nosso amor

       

      Luar de lua serena

      Arraiá iluminado

      O forró comendo quente

      Marinês e sua gente

      Luiz Gonzaga a cantar

       

      No coração da pequena

      O primeiro amor batia

      A primeira brasa ardia

      Da fogueira poesia

      Era só o São João chegar

       

      Pula fogueira iá

      Que eu pulo sim senhor

      Pula fogueira iá

      Que São João mandou

      É brincadeira

      Balão, beijo de biju, balão

      Ainda acendo

      Uma fogueira no meu coração


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo e teclados: Luiz Antônio

      Bateria: Renato “Massa”

      Baixo: Jacaré

      Acordeom: Zé Américo Bastos

      Percussão: Paulinho He-Man

      Guitarras: Marcos Arcanjo e Robertinho de Recife

      Vocais: Lucia Perez, Tadeu Mathias, Fabio Mondego e Roberta Little

    • Ciranda da Rosa Vermelha (folclore / adaptação: Alceu Valença) Letra


      Teu beijo doce tem sabor do mel da cana

      Sou tua ama, tua escrava, teu amor

      Sou tua cama, teu engenho, teu moinho

      Tu és feito um passarinho

      Que se chama beija-flor

      Sou tua cama, teu engenho, teu moinho

      Tu és feito um passarinho

      Que se chama beija-flor

       

      Sou rosa vermelha

      Ai meu bem querer

      Beija-flor sou tua rosa

      Hei de amar-te até morrer

       

      Quando tu voas pra beijar as outras flores

      Eu sinto dores, um ciúme, um calor

      Que toma o peito, o meu corpo

      E invade a alma

      Só meu beija-flor acalma

      Tua escrava, meu senhor

      Que toma o peito, o meu corpo

      E invade a alma

      Só meu beija-flor acalma

      Tua escrava, meu senhor


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Julinho Teixeira

      Bateria: Robert Lyy

      Percussão: Renato Ladeira e Paulinho He-Man

      Violão e guitarra portuguesa: Robertinho de Recife

      Vocais: Jurema Cândia, Clarice, Marisa Fossa e Sara Nicoleh

    • Tambor do Mundo (Geraldo Azevedo / Fausto Nilo) Letra


      Bombo de zabumba

      Coração do forró

      Bateu no tambor do mundo

      Eu danço a noite inteira

      Na ilha de Cuba

      Ou no sertão de Icó

      Tem coco quebrando tudo

      Que levanta poeira

      É a nossa alegria

      Senhoras e senhores

       

      No mar da China

      No azul da cordilheira

      Ou em Madagascar

      Toda a moçada vai querer

      Lá em Campina

      Ou no baile de Madureira

      Se a sanfona tocar

      A madrugada vai tremer

      Vai todo mundo brincar

       

      Eu quero ver tu remexer

      No resfolego da sanfona até o sol raiar

      Eu quero ver tu remexer

      No resfolego da sanfona até o sol raiar

       

      Hoje eu sou rumbeira

      Amanhã que será?

      Ô mana, vamos pra vida

      Que chorar não serve

      Lá no fim do mundo

      Onde o tambor batucar

      É a nossa alegria

      Senhoras e senhores

       

      Já fui Diana

      Fui pastora e feiticeira

      Fui sereia do mar

      Apaixonada por viver

      Na caravana

      Fui cigana, fui princesa

      Mas quando eu te encontrar

      A madrugada vai tremer

      Vai todo mundo brincar


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo e acordeom: Zé Américo Bastos

      Bateria: Renato “Massa”

      Baixo: Jacaré

      Percussão: Paulinho He-Man

      Trombone: Aldivas Ayres

      Trompete: Chico Oliveira

      Sax: David Ganc

      Teclados: Luiz Antônio

    • Eu Também Quero Beijar (Moraes Moreira / Pepeu Gomes / Fausto Nilo) Letra


      A flor do desejo e do maracujá

      Eu também quero beijar

      Haja fogo, haja guerra, haja a guerra que há

      Eu também quero beijar

      Do Farol da Barra ao Jardim de Alá

      Eu também quero beijar

      Da pele morena daquela acolá

      Eu também quero beijar

       

      Beijo a flor

      Mas a flor que eu desejo eu não posso beijar

      Ai amor

      Haja fogo, haja guerra, haja a guerra que há

      Teu cheiro

      É o marinheiro do barco fantasma que vai me levar

      Mundo inteiro

      Haja fogo, haja guerra, haja a guerra que há

      Festejo

       

      Chão da praça

      (Moraes Moreira / Fausto Nilo)


      Meu amor

      Quem ficou nessa dança, meu amor

      Tem fé na dança

      Nossa dor, meu amor

      É que balança a nossa dor

      O chão da praça

       

      Vê que já detonou o som na praça

      Porque já todo o pranto rolou

      Olhos negros, cruéis, tentadores

      Das multidões sem cantor

      Olhos negros, cruéis, tentadores

      Das multidões sem cantor

       

      Eu era menino, menino

      Um beduíno com ouvido de mercador

      Lá no oriente tem gente

      Com olhar de lança na dança do meu amor

      Tem que dançar a dança

      Que a nossa dor

      Balança o chão da praça

      Ououô

       

       

      Gemedeira

      (Robertinho de Recife / Capinan)


      Tava eu mirando a lua

      Veio a moça me olhar

      Perguntei se era nova

      Não custou me apaixonar

       

      No cavalo de São Jorge

      Já mulher a galopar

      Sete léguas de paixão

      Sem parar de suspirar

       

      Tava tocando a viola

      Num galope à beira mar

      Ai, ai, ai, é bom que dói

      Ui, ui, ui, chega a sangrar

       

      Gemedeira é que nem beijo

      Começou, custa a parar

      Ela olhou, pediu um xote

      Pra gemer bastou te amar

       

      Tava sentado na pedra

      Veio o dono reclamar

      Perguntou pra ver quem era

      Não custou me apresentar

       

      Com cem tiros de pistola

      Sete furos de punhal

      Sou violeiro, patrão

      Ele não pôde escutar


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo e guitarras: Robertinho de Recife

      Bateria: Renato “Massa”

      Baixo: Jacaré

      Percussão: Paulinho He-Man

      Teclados: Luiz Antônio

      Guitarras em “Eu também quero beijar”: Pepeu Gomes

      Vocais: Lucia Perez, Tadeu Mathias, Fabio Mondego e Roberta Little

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Palco e estúdio – as alcovas de Elba

 

Está certo que o habitat natural de Elba Ramalho é o palco. Ela já sabia disso, quando via os reisados nos terreiros da família no sertão do Piancó, Paraíba do Norte. Basta ver a menina franzina ganhando três metros de altura e acompanhar o raio da faísca de seu olhar refletindo o refletor. A última vez em que vi assim tão confortável na própria pele postiça foi no show O Grande Encontro. Ela usava uma estrela na testa. Ou era a estrela que usava a testa dela, sei lá. Elba é isso: arroz de festa, quibe de quermesse – nasceu para ser notada, a exibida. Sendo abelha, o palco é a colmeia; sendo a rainha, o trono é o palco. Seus pés pisam o tablado com a intimidade difícil de se conseguir até numa alcova: muitas vezes vestida, ela está sempre nua; os sapatos que usa são ilusões de couro, pois no palco ela é toda vez a cantora descalça, e sem meias, vejam bem.

Pois foi do palco que ouvi a notícia de que Baioque – o disco, como se dizia no meu tempo (ou era LP?) ou o CD, como se diz hoje – estava em estado de gestação. Elba cantou S.O.S. e, de repente, eu descobri que Raul Seixas, o profeta do Apocalipse, mesmo tendo andado de carona no disco voador, nunca havia deixado o sertão da Bahia (e ainda está lá, eu juro), podendo ser, como certamente será, um artista de sucesso nas festas juninas da Campina Grande, que ela e eu tanto amamos.

Ao ouvir o disco, o demo, esta gíria tecnológica, que lembra nosso medo ancestral do inferno – avançando com cuidado entre surpresas e lembranças, vi-me diante da prova de que o teatro brasileiro perdeu uma atriz jeitosa, quando ela deixou a Ópera do Malandro. E, ao contrário do que previam os maus profetas (entre estes não estava, certamente, o Raulzito, mas, para cúmulo dos pecados, o autor destas mal traçadas linhas, sim), a canção popular ganhou uma voz definida e assumida. O lançamento de Elba Ramalho é o de sua maturidade. No palco, reina a cantriz. No CD (eu quase escrevia vinil), impera a cantora, a imperadora, capaz de retomar um sucesso antigo como a canção-título (de seu amigo Chico Buarque) e interpretá-la de um jeito novo e, mais do que novo, seu.

Do capítulo das lembranças consta a fortíssima Vila do sossego, de Zé Avôhai Ramalho Neto. Lembro-me de Elba no palco do Teatro São Pedro, na Barra Funda, em São Paulo, cantando no coro no show de lançamento daquele estrondoso sucesso do compadre nosso e primo dela. Tanto tempo faz. Melhor não contar, para não entregar nossa idade, parelha. Consta também Paralelas, de outro amigo comum, o “violétrico” cearense Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Bel escreveu a canção num tempo de dureza e a rejeitava, talvez por considera-la piegas, mas ela foi sucesso com Vanusa e será de novo com Elba. Porque merece; ao contrário do que pensava o próprio autor, é uma linda página de nosso cancioneiro popular (esta foi caprichada, hein?).

Ednardo, que com Rodger Rogério e Teti, era do Pessoal do Ceará, fez Pavão mysteriozo também como não quisesse nada, até estourar como faixa da trilha sonora da novela global Saramandaia. A canção, que se encerra com um verso antológico de final de romance de cordel – “eles são muitos, mas não podem voar” –, recebeu uma roupagem solene, comme il faut. Elba, craque em escolher repertório, também sabe, muito bem, encontrar o arranjador certo para a canção bem feita-e-eleita.

Como Baioque, Os argonautas, de Caetano Veloso, Vamos fugir, de Gilberto Gil e Liminha, entram no capítulo extra dos autores da veneração da cantora, que se enturmou na turma certa, quando pulou das tábuas do palco para o bico do laser (eu quase escrevia agulha, gente!). O repertório já dá uma ideia de antologia, que me parece ser a pretensão (no bom sentido da palavra, pessoal) da obra, como ela foi concebida. Geraldinho Azevedo comparece com Tambor do mundo, só porque não poderia faltar, assim como Alceu Valença, o clown do maracatu, que é parceiro do Geraldinho, mas desta vez preferiu ficar sócio do provo brasileiro (sua Ciranda da rosa vermelha é adaptada do folclore).

No capítulo das surpresas, melhor dizendo, da curiosidade, que se opõe à memória, pero no mucho, a Elba, aquela do estúdio, ainda nos brinda com Lenine, que é parceiro de nosso irmão Bráulio Tavares, mas compôs mesmo Relampiano (que dá o toque social do acervo) foi com Paulinho Moska, que está entrando na moda (com todos os méritos, diga-se). Este é ainda o caso de A música do nosso amor, de Saul Barbosa e Jorge Portugal. Antes de subir de volta ao palco, com seus chinelos e seus balangandãs, a imperatriz do separatismo nordestino ataca de Zanzibar, escrita por Armandinho e Fausto Nilo.

De volta ao palco-alcova, ela reserva duas faixas para medleys. Uma é de xotes, que ela aprendeu a cantar vendo as umbigadas de Almira em Jackson de Todos os Pandeiros. Dominguinhos e Abel Silva comparecem ao forró com Quando chega o verão; Pedrinho e Primo, com Até mais vê; e Assisão, com a deliciosa, impagável, Pequenininha, própria para ser dançada no Parque do Povo, às margens do vazio Açude Novo, lá na Rainha da Borborema.

E o palco se engalana nos frevos Eu também quero beijar (de Pepeu, Moraes Moreira e Fausto Nilo); Chão da praça (de Moraes Moreira e Fausto Nilo) e a irresistível Gemedeira (o poema certo de Zé Carlos Capinam para a melodia endiabrada de Robertinho de Recife).

O que dizer? Ô, dá-lhe Elba! Olê, olê, olá. E mais: se você, como eu, pensava que a porta da alcova de Elba dá apenas para o palco iluminado, saiba que ela já frequenta a penumbra dos estúdios de gravação sem maquiagem, como se escovasse os dentes no banheiro de sua mais indevassável intimidade. Se duvidar, ouça Baioque. Ou então me desafie para um duelo a faca-peixeira, que eu vou convidar Zeca Tirbutina de madrinha.

 

José Nêumanne

(paraibano do sertão do Rio do Peixe, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde, de Sumpaulo.)

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