O Grande Encontro 2

1997

O Grande Encontro 2
    • Disparada (Geraldo Vandré / Theo de Barros) cantam: Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho Letra


      Prepare o seu coração

      Pras coisas que eu vou contar

      Eu venho lá do sertão

      Eu venho lá do sertão

      Eu venho lá do sertão

      E posso não lhe agradar

       

      Aprendi a dizer não

      Ver a morte sem chorar

      E a morte, o destino, tudo

      A morte, o destino, tudo

      Estava fora de lugar

      Eu vivo pra consertar

       

      Na boiada já fui boi

      Mas um dia me montei

      Não por um motivo meu

      Ou de quem comigo houvesse

      Que qualquer querer tivesse

      Porém por necessidade

      Do dono de uma boiada

      Cujo vaqueiro morreu

       

      Boiadeiro muito tempo

      Laço firme, braço forte

      Muito gado, muita gente

      Pela vida segurei

      Seguia como num sonho

      E boiadeiro era um rei

       

      Mas o mundo foi rodando

      Nas patas do meu cavalo

      E nos sonhos que fui sonhando

      As visões se clareando

      As visões se clareando

      Até que um dia acordei

       

      Então não pude seguir

      Valente lugar-tenente

      De dono de gado e gente

      Porque gado a gente marca

      Tange e ferra, engorda e mata

      Mas com gente é diferente

       

      Se você não concordar

      Não posso me desculpar

      Não canto pra enganar

      Vou pegar minha viola

      Vou deixar você de lado

      Vou cantar noutro lugar

       

      Na boiada já fui boi

      Boiadeiro já fui rei

      Não por um motivo meu

      Ou de quem comigo houvesse

      E qualquer querer tivesse

      Por qualquer coisa de seu

      Por qualquer coisa de seu

      Querer mais longe que eu


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo de base: Zé Ramalho e Geraldo Azevedo

      Arranjo de cordas e sopros: Robertinho de Recife

      Violão: Zé Ramalho

      Viola: Geraldo Azevedo

      Acordeom: Dominguinhos

      Baixo: Jamil Joanes

      Flautas e sax soprano: César Michiles

      Teclados: Luiz Antônio

      Percussão: Zé Gomes, Lucas e Firmino

    • O Princípio do Prazer (Geraldo Azevedo) cantam: Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho Letra


      Juntos vamos esquecer

      Tudo que doeu em nós

      Nada vale tanto pra rever

      Tempo que ficamos sós

      Faz a tua luz brilhar

      Pra iluminar a nossa paz

      O meu coração me diz

      Fundamental é ser feliz

      Meu coração me diz

      Fundamental é ser feliz

       

      Juntos vamos acordar o amor

      Carícias, canções

      Deixa entrar o sol da manhã

      A cor do som

      Eu com você sou muito mais

      O princípio do prazer

      Sonho que o tempo não desfaz

      O meu coração me diz

      Fundamental é ser feliz

      Meu coração me diz

      Fundamental é ser feliz


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Robertinho de Recife

      Violão: Geraldo Azevedo

      Viola: Zé Ramalho

      Baixo: Jamil Joanes

      Guitarra: Robertinho de Recife

      Teclados: Luiz Antônio

      Percussão: Zé Gomes, Lucas e Firmino

      Bateria: Renato Massa

    • Banquete de Signos (Zé Ramalho) cantam: Elba Ramalho e Zé Ramalho Letra


      Discutir o cangaço com liberdade

      É saber da viola, da violência

      Descobrir nos cabelos inocência

      É saber da fatal fertilidade

       

      Descobrir a cidade na natureza

      Descobrir a beleza dessa mulher

      Descobrir o que der boniteza

      Na peleja do homem vier, quando vier

       

      Descobrir o bagaço dos engenhos

      No melaço da cana mais um beijo

      Descobrir os desejos que não tem cura

      Saracura do brejo da novena

       

      Descobrir a serena da natureza

      Descobrir a beleza dessa mulher

      Descobrir o que der boniteza

      Na peleja do homem vier, quando vier


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Zé Ramalho e Robertinho de Recife

      Violão: Zé Ramalho

      Baixo: Jamil Joanes

      Sitar: Robertinho de Recife

      Teclados: Luiz Antônio

      Percussão: Firmino e Paulinho He-Man

    • Miragens (Geraldo Azevedo / Zé Ramalho) cantam: Geraldo Azevedo e Zé Ramalho Letra


      Bem querer vem querer-me

      As ondas, as miragens

      O fogo que não incendeia

       

      A imagem mais bonita

      A entrega da emoção

      Os amores pulsando de novo

       

      A incrível maravilha

      Da estrela do verão

      Suspendendo a ponte do manto da noite

       

      Espiral do silêncio

      Cristalina a visão

      Clareando a fonte do sonho do povo

       

      Em vez de emudecer poderia cantar

      A mais linda canção sem lamento

      E quem não escutar perderia talvez

      A maior metade do tempo do sonho


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Zé Ramalho e Geraldo Azevedo

      Violão: Geraldo Azevedo

      Viola: Zé Ramalho

      Guitarra solo: Robertinho de Recife

      Baixo: Jamil Joanes

      Bateria: Renato Massa

      Órgão: Luiz Antônio

      Percussão: Zé Gomes, Lucas e Firmino

    • Pedras e Moças (Zé Ramalho e Geraldo Azevedo) cantam: Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho Letra


      Acho que a primeira pedra

      Quem atirou não tem perdão

      A segunda pedra

      Quem a jogou não sei

       

      Sei que não sou eu quem ferirá

      Pela última vez

      As milhares moças

      Tantas Madalenas

      Tenras, tão pequenas

      Loucas

       

      De tanto amor

      Como é que vão

      Como é que vêm

      Tanto querer sem um bem

       

      Só segura nessa pausa

      Quem tem um sol que é maior

      De quem tenha dó

      Sem ser menor demais

      Sabe e saberá de si

      Talvez quem penetrou

      Nas milhares moças

      Tantas madalenas

      Tenras tão pequenas

      Loucas

       

      De tanto amor

      Como é que vão

      Como é que vêm

      Tanto querer sem um bem

       

      De tanto amor

      Como saber

      Quando gozar

      Sem conhecer seu sabor

       

      Irá dizer

      Irá dançar

      Se sonhos que vêm

      Antes dos anjos dos homens

      E dos demônios

      Luciferianas, pobres Gabriéis

      Como são cruéis os deuses meus

      Ou então serão


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Zé Ramalho e Geraldo Azevedo

      Violão: Geraldo Azevedo

      Viola: Zé Ramalho

      Baixo: Jamil Joanes

      Sax soprano: Léo Gandelman

      Vibrafone e órgão: Luiz Antônio

      Percussão: Zé Gomes, Lucas e Firmino

      Bateria: Renato Massa

    • Canta Coração (Geraldo Azevedo / Carlos Fernando) cantam: Elba Ramalho e Geraldo Azevedo Letra


      Canta, canta, passarinho

      Canta, canta, miudinho

      Na palma da minha mão

       

      Quero ver você voando

      Quero ouvir você cantando

      Quero paz no coração

       

      Eu quero ver você voando

      Quero ouvir você cantando

      Na palma da minha mão

       

      Na palma da minha mão

      Tem os dedos, tem as linhas

      Que olhar cigano caminha

      Procurando alcançar

      A nau perdida, o trem que chega

      A nova dança, mata verde esperança

      Em suas tranças vou voar

      Passarinho, vou voar

       

      Meu alegre coração

      É triste como um camelo

      É frágil que nem brinquedo

      É forte como um leão

      É todo zelo, é todo amor, é desmantelo

      É querubim, é cão de fogo

      É Jesus Cristo, é Lampião

      Passarinho, eu vou voar


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Geraldo Azevedo e Zé Ramalho

      Violão: Geraldo Azevedo

      Viola: Zé Ramalho

      Baixo: Jamil Joanes

      Acordeom: Dominguinhos

      Flautas: César Michiles

      Percussão: Firmino e Paulinho He-Man

    • Eternas Ondas (Zé Ramalho) cantam: Elba Ramalho e Zé Ramalho Letra


      Quanto tempo temos antes de voltarem

      Aquelas ondas

      Que vieram como gotas em silêncio

      Tão furioso

      Derrubando homens entre outros animais

      Devastando a sede desses matagais

      Derrubando homens entre outros animais

      Devastando a sede desses matagais

       

      Devorando árvores, pensamentos

      Seguindo a linha

      Do que foi escrito pelo mesmo lábio

      Tão furioso

      E se teu amigo vento não te procurar

      É por que multidões ele foi arrastar

      E se teu amigo vento não te procurar

      É por que multidões ele foi arrastar


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Zé Ramalho e Robertinho de Recife

      Viola: Zé Ramalho

      Baixo: Jamil Joanes

      Violas, guitarras e efeitos: Robertinho de Recife

      Solo hoog: Luiz Antônio

      Percussão: Firmino e Paulinho He-Man

    • Bicho de 7 Cabeças II (Zé Ramalho / Geraldo Azevedo / Renato Rocha) cantam: Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho Letra


      Não dá pé

      Não tem pé nem cabeça

      Não tem ninguém que mereça

      Não tem coração que esqueça

      Não tem jeito mesmo

      Não tem dó no peito

      Não tem nem talvez

      Ter feito o que você me fez

      Desapareça

      Cresça e desapareça

       

      Não tem dó no peito

      Não tem jeito

      Não tem coração que esqueça

      Não tem ninguém que mereça

      Não tem pé, não tem cabeça

      Não da pé, não é direito

      Não foi nada, eu não fiz nada disso

      E você fez um

      Bicho de sete cabeças

      Bicho de sete cabeças


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Zé Ramalho e Geraldo Azevedo

      Violão: Geraldo Azevedo

      Viola: Zé Ramalho

      Baixo: Jamil Joanes

      Trompete: Marcio Montarroyos

      Vibrafone e órgão: Luiz Antônio

      Percussão: Zé Gomes, Lucas e Firmino

      Bateria: Renato Massa

    • O Autor da Natureza (Zé Vicente da Paraíba / Passarinho do Norte / Bráulio Tavares) cantam: Geraldo Azevedo e Zé Ramalho Letra


      A natureza

      A natureza

      A natureza

      A natureza

       

      O que prende demais minha atenção

      É um touro raivoso numa arena

      Uma pulga do jeito que é pequena

      Dominar a bravura de um leão

      Na picada ele muda a posição

      Pra coçar-se depressa com certeza

      Não se serve da unha nem da presa

      Se levanta da cama e fica em pé

      Tudo isso provando o quanto é

      Poderosa e suprema a natureza

       

      Admiro demais o beija-flor

      Que com medo da cobra inimiga

      Só constrói o seu ninho na urtiga

      Recebendo lição do Criador

      Observo a coragem do condor

      Que nos montes rochosos come a presa

      Urubu empregado da limpeza

      Quando é triste a vida do abutre

      Quando encontra um morto é que se nutre

      Quanto é grande e suprema a natureza

       

      A abelha por Deus foi amestrada

      Sem haver um processo bioquímico

      Até hoje não houve nenhum químico

      Pra fazer a ciência dizer nada

      O buraco pequeno da entrada

      Facilita a passagem com franqueza

      Uma é sentinela de defesa

      E as outras se espalham no vergel

      Sem turbina, sem tacho fazem mel

      Como é grande o poder da natureza

       

      Não há pedra igualmente ao diamante

      Nem metal tão querido quanto o ouro

      Não existe tristeza como o choro

      Nem reflexo igual ao do brilhante

      Nem comédia maior que a de Dante

      Nem existe acusado sem defesa

      Nem pecado maior que avareza

      Nem altura igualmente ao firmamento

      Nem veloz igualmente ao pensamento

      Nem há grande igualmente à natureza

       

      Tem um verso que fala da maconha

      Que é uma erva que dá no meio do mato

      Se fumada provoca um tal barato

      A maior emoção que a gente sonha

      A viagem às vezes é medonha

      Dá suor, dá vertigem, dá fraqueza

      Porém, quase sempre é uma beleza

      Eu por mim experimento todo dia

      Se eu tivesse um agora eu bem queria

      Pois a coisa é da santa natureza


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Zé Ramalho e Geraldo Azevedo

      Violão: Geraldo Azevedo

      Baixo: Jamil Joanes

      Berimbau de bacia: Robertinho de Recife

      Percussão: Zé Gomes, Lucas e Firmino

    • Saga da Asa Branca (Zé Vicente da Paraíba / Passarinho do Norte / Bráulio Tavares) cantam: Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho Letra


      Asa Branca

      (Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira)


      Quando olhei a terra ardendo

      Qual fogueira de São João

      Eu perguntei a Deus do céu

      Por que tamanha judiação

      Eu perguntei a Deus do céu, ai

      Por que tamanha judiação

       

      Que braseiro, que fornalha

      Nem um pé de plantação

      Por falta d’água perdi meu gado

      Morreu de sede meu alazão

      Por falta d’água perdi meu gado

      Morreu de sede meu alazão

       

      Inté mesmo a Asa Branca

      Bateu asas do sertão

      Entonce eu disse “adeus Rosinha

      Guarda contigo meu coração”

      Entonce eu disse “adeus Rosinha

      Guarda contigo meu coração”

       

      Quando o verde dos teus olhos

      Se espalhar na plantação

      Eu te asseguro, não chore não, viu

      Que eu voltarei viu, meu coração

      Eu te asseguro, não chore não, viu

      Eu voltarei viu, meu coração

       

      A volta da Asa Branca

      (Luiz Gonzaga / Zé Dantas)


      Já faz três noites que pro norte relampeia

      A Asa Branca ouvindo o ronco do trovão

      Já bateu asas e voltou pro meu sertão

      Ai, ai, eu vou-me embora

      Vou cuidar da plantação

      Já bateu asas e voltou pro meu sertão

      Ai, ai, eu vou-me embora

      Vou cuidar da plantação

       

      A seca fez eu desertar da minha terra

      Mas felizmente Deus agora se alembrou

      De mandar chuva presse sertão sofredor

      Sertão das mulhé séria, dos home trabalhador

      De mandar chuva presse sertão sofredor

      Sertão das mulhé séria, dos home trabalhador

       

      Rios correndo, as cachoeiras tão zoando

      Terra molhada, mato verde, que riqueza

      E a Asa Branca tarde canta que beleza

      Ai, ai, o povo alegre, mais alegre a natureza

      E a Asa Branca tarde canta que beleza

      Ai, ai, o povo alegre, mais alegre a natureza

       

      Revendo a chuva me arrecordo de Rosinha

      A linda flor do meu sertão pernambucano

      E se a safra não atrapalhar meus planos

      Que é que há ó seu vigário, vou casar no fim do ano

      E se a safra não atrapalhar meus planos

      Que é que há ó seu vigário, vou casar no fim do ano


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Geraldo Azevedo e Zé Ramalho

      Viola: Zé Ramalho

      Baixo: Jamil Joanes

      Viola de 10 cordas: Robertinho de Recife

      Acordeom: Dominguinhos

      Flautas: César Michiles

      Bateria: Renato Massa

      Percussão: Zé Gomes, Lucas e Firmino

    • Canção da Despedida (Geraldo Azevedo / Geraldo Vandré) canta: Elba Ramalho Letra


      Já vou embora

      Mas sei que vou voltar

      Amor não chora

      Se eu volto é pra ficar

       

      Amor não chora

      Que a hora é de deixar

      O amor de agora

      Pra sempre ele ficar

       

      Eu quis ficar aqui, mas não podia

      O meu caminho a ti não conduzia

      Um rei mal coroado não queria

      O amor em seu reinado

      Pois sabia, não ia ser amado

       

      Amor não chora, eu volto um dia

      O rei velho e cansado já morria

      Perdido em seu reinado, sem Maria

      Quando eu me despedia

      E no meu canto lhe dizia


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo e violão: Geraldo Azevedo

    • Ai Que Saudade de Ocê (Vital Farias) cantam: Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho Letra


      Não se admire se um dia

      Um beija-flor invadir

      A porta da tua casa

      Te der um beijo e partir

      Fui eu que mandei o beijo

      Que é pra matar meu desejo

      Faz tempo que eu não te vejo

      Ai que saudade d’ocê

       

      Se um dia ocê lembrar

      Escreva uma carta pra mim

      Bote logo no correio

      Com frases dizendo assim:

      “Faz tempo que não te vejo

      Quero matar meu desejo

      Te mando um monte de beijos

      Ai que saudade sem fim”

       

      E se quiser recordar

      Aquele nosso namoro

      Quando eu ia viajar

      Você caía no choro

      E eu chorando pela estrada

      Mas o que eu posso fazer

      Trabalha é minha sina

      Eu gosto mesmo é d'ocê


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo: Zé Ramalho e Geraldo Azevedo

      Violão: Geraldo Azevedo

      Viola: Zé Ramalho

      Baixo: Jamil Joanes

      Acordeom: Dominguinhos

      Flautas: César Michiles

      Percussão: Firmino e Paulinho He-Man

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O Grande Encontro 2 não é simplesmente uma sequência a Grande Encontro, lançado ano passado pela BMG. O primeiro disco tinha sido o registro ao vivo de um espetáculo que, meio que de improviso, reunira quatro artistas com trajetórias semelhantes e uma história em comum. Este agora surge primeiro como disco, para só depois ganhar forma de show. Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho reuniram em torno de si uma constelação de músicos de primeira linha (de Robertinho de Recife a Dominguinhos) para celebrar.

A opção pelo disco de estúdio deu ao O Grande Encontro II uma textura diferente da do disco anterior, e que faz com que os dois se complementem. No primeiro é captada a energia, a espontaneidade de um show ao vivo, deixando clara a importância que tiveram esses fatores no inicio da carreira dos artistas: porque foi, por assim dizer, “no grito”, “no peito e na raça” que eles conquistaram primeiro o público nordestino e, em seguida, o resto do Brasil.

Este segundo disco, por outro lado, registra a evolução técnica e profissional que os artistas experimentaram ao longo destas duas décadas de atividade. A verdade é que existem cantores que se sentem mais à vontade no palco, e cantores que sentem mais à vontade no estúdio; no caso de Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho, a carreira de cada um foi, entre outras coisas, a conquista gradual do espaço do estúdio como um laboratório de criação tão importante quanto o palco. Além de O Grande Encontro II, é possível ver os sinais dessa maturidade nos discos mais recentes de Elba Ramalho (Leão do Norte e Baioque), e de Zé Ramalho (20 anos – Antologia acústica), enquanto que na obra de Geraldo Azevedo esse processo já vem se revelando mais gradualmente, numa escalada de discos (Bossa tropical, Berekekê, Futuramérica) que, como aqueles, conseguem reproduzir em estúdio o perfil musical do artista, com toda a sua completa tapeçaria de sons, melodias, poesia e referências culturais.

A escolha de Disparada, de Théo e Geraldo Vandré, para abrir o disco tem uma força simbólica, pois foi esta canção, vencedora do Festival da TV Record, juntamente com A banda, que impôs em definitivo a temática nordestina/sertaneja como um dos ícones da “faixa nobre” da MPB. Depois do impacto de Disparada, violas e violeiros adquiriram uma dimensão épica no vocabulário da MPB, como se vê pela rápida sucessão de canções de alto nível que seguiram suas pegadas: Ponteio (Edu Lobo/Capinan), O cantador (Dori Caymmi/Nelson Motta), A estrada e o violeiro (Sidney Miller).

A presença de “Disparada” neste disco estende os limites deste encontro até um momento no passado, em que estes três artistas, ainda adolescentes e sem se conhecerem entre si, foram tocados pelo vigor das violas e das vozes que entoavam: “...as visões se clareando, as visões se clareando, até que um dia acordei”. E esse sopro épico está presente em outros momentos preciosos de O Grande Encontro II, como, por exemplo, no resgate dos martelos agalopados recolhidos na tradição oral dos repentistas (O autor da natureza), ou em canções como Eternas ondas ou Banquete de signos, cujas ousadias de linguagem não teriam sido possíveis sem a grande reviravolta poético-musical dos anos 60.

Se Vandré representou num certo momento uma das “linhas evolutivas” para a música brasileira (embora rendendo menos frutos do que a linha tropicalista que Caetano e Gil inauguravam na mesma época), a “linha tradicional” pode ser identificada nos criadores clássicos da canção do Nordeste, Luiz Gonzaga, Zé Dantas e Humberto Teixeira, que aparecem em O Grande Encontro II na faixa Saga da Asa Branca. Este díptico de canções (Asa branca/A volta da asa branca) expressa a cara-e-coroa da saga de todos os migrantes, todos os retirantes, todos os exilados: a fuga para a cidade grande depois que a seca deixou “a terra ardendo qual fogueira de São Joao”, e o retorno feliz depois que “já faz três noites que pro Norte relampeia”. Asa branca tornou-se no mundo inteiro o símbolo da canção nordestina; mas é preciso não esquecer A volta da asa branca, uma cantiga mais rica em melodia e letra e, acima de tudo, um hino à alegria, à volta para casa, à reconciliação de um povo com sua própria terra.

O Grande Encontro II não é apenas o encontro de três artistas, mas também o ponto de convergência das correntes culturais que formaram cada um deles, e impeliram seu trajeto do sertão até a cidade, e depois, da cidade até a metrópole. Em Geraldo Azevedo, as canções sertanejas, depois a bossa-nova e, em seguida, o tropicalismo. Em Zé Ramalho, o repente dos violeiros, o misticismo das novenas e benditos, e finalmente o rock dos Beatles e Bob Dylan. Em Elba Ramalho, a musicalidade das festas-de-rua como São João e Carnaval, enriquecidas depois pela sensibilidade dramática desenvolvida nos palcos de café-concerto.

O Grande Encontro II tem participações especiais de Robertinho de Recife (como produtor do disco, arranjador e instrumentista), Márcio Montarroyos (trompete em Bicho de sete cabeças), Dominguinhos (acordeom em Disparada, Ai que saudade d’ocê, Canta coração e Saga da asa branca) e Léo Gandelman (sax soprano em Pedras e moças). A formação básica das faixas contou com Jamil Joanes no baixo, Luiz Antonio nos teclados, Renato Massa na bateria, Cesar Michiles no sax e nas flautas, e na percussão Zé Gomes, Lucas, Firmino e Paulinho He-Man.

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