ELBA

1981

ELBA
    • Temporal (Bráulio Tavares / Fubá) Letra


      Quem viu a terra gemer

      Nos dentes brancos do mar

      E a laje fria da espuma

      A sete palmos de olhar

      Pisou as curvas do mapa

      E os raios do sol nascente

      Tocou as cordas da harpa

      De aço incandescente

       

      Eu percorri todo o sonho

      No meio da madrugada

      E vi plantações de balas

      Sementes das espingardas

      Eu mato, matas e mata

      Quem fala não mata não

      Quem cala consente a fala

      E os gritos do capitão

       

      Quem viu os cachorros negros

      Latindo para o luar

      E um voo vão dos morcegos

      Gritando mudos no ar

      Conhece a força guardada

      Na mola dos temporais

      Escurecendo as estrelas

      Nos ombros dos generais

       

      A mais cruel armadilha

      Encruzilhada dos fins

      E os alicerces das ilhas

      Roídos pelos cupins

      A fina dor da ferida

      Doendo até no facão

      E o mapa da minha vida

      Na palma da minha mão

       

      Quem viu o braço da sombra

      Das folhas de uma palmeira

      Pousar em carícia longa

      Nos ombros da terra inteira

      Ouviu da boca da noite

      Feroz silêncio mortal

      E viu o bobo da corte

      Dançando no funeral

       


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo, regência e piano: Miguel Cidras

      Guitarra e violas: Joca

      Baixo: Paulo Cesar

      Bateria: Mamão

      Percussão: Marcos Amma

      Sanfona: Zé Américo

      Violinos: Peraschi, Walter Hack, Carlos Hack, Virgílio Filho, Jorge Faini, Aizik Geller, Daltro e Pascoal

      Violas: Penteado, Frederick Stephany, José Dias de Lana e Nelson de Macedo

      Cellos: Alceu e Jorge Ranesvsky

    • Amanhã Eu Vou (Luiz Gonzaga / Beduíno) Letra


      Era uma certa vez

      Um lago mal assombrado

      A noite sempre se ouvia

      Crimbamba cantando assim

       

      Amanhã eu vou, amanhã eu vou

      Amanhã eu vou, amanhã eu vou

      Eu vou, amanhã eu vou

      Amanhã eu vou, amanhã eu vou

       

      A carimbamba, ave da noite

      Cantava triste lá na taboa

      Amanhã eu vou, amanhã eu vou

       

      E Rosabela, linda donzela

      Ouviu o seu canto e foi pra lagoa

      E Rosabela, linda donzela

      Ouviu o seu canto e foi pra lagoa

       

      A taboa laçou a donzela

      Pra dentro d’água ela levou

      A carimbamba vive cantando

      Mas Rosabela nunca mais voltou

       

      Amanhã eu vou, amanhã eu vou

      Amanhã eu vou, amanhã eu vou

      Eu vou, eu vou

      Eu vou, amanhã eu vou

       


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo, regência e piano acústico: Miguel Cidras

      Baixo: Paulo Cesar

      Guitarra: Joca

      Percussão: Marcos Amma

      Bateria: Mamão

      Charango: Pipo

      Violinos: Peraschi, Walter Hack, Carlos Hack, Virgílio Filho, Jorge Faini, Aizik Geller, Daltro e Pascoal

      Violas: Penteado, Frederick Stephany, José Dias de Lana e Nelson de Macedo

      Cellos: Alceu e Jorge Ranesvsky

    • Dono Dos Teus Olhos (Humberto Teixeira) Letra


      Não te esqueça

      Que eu sou dona dos teus óio

      Faz favor de num espiá pra mais ninguém

      Esse azul cor e promessa dos teus óio

      Faz quarqué cristão gostar de tu também

       

      Que nosso senhor perdoe o meu ciúme

      Quando penso em cegar os óio teu

      Pra que eu, somente eu seja o teu guia

      Os óio dos teus óio, a luz dos óio teu


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo, regência e piano: Zé Américo

      Baixo acústico: Antonio Santana

      Violinos: Peraschi, José Alves, Virgílio Filho, Aizik Geller, Vidal e Pascoal

      Violas: Penteado e Hindemburgo Pereira

      Cellos: Marcio Mallard e Jaques Morelenbaum

    • Oitava (Cátia de França) Letra


      Explode o pôr do sol

      Lambendo o horizonte

      Da outra banda, a Lua

      Por entre os coqueirais

       

      Mistérios, sei, ele encerra

      Segredos seus ao luar

      Silenciosa mãe terra

      Sem pressa, sem esperar

       

      Oitava teclados da vida

      Oitava na nota dos dias

      Eu tava presa pelos dedos

      Em brasa, em carne viva

      Carne viva, ê...

       

      Ouvindo o mar nós estávamos

      No tombo do ata ou desata

      Só sei que oitava da vida

      Tu foge ou ela te mata

       

      Oitava teclados da vida

      Oitava na nota dos dias

      Eu tava sem rumo, perdida

      Tão triste, na dor consumida

      Consumida, ê...


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo, regência e piano: Miguel Cidras

      Guitarra: Joca

      Baixo: Paulo Cesar

      Bateria: Mamão

      Percussão: Marcos Amma

      Trumpetes: Marcio Montarroyos e Bidinho

      Saxes: Leo Gandelman, Zé Carlos e Oberdan

      Trombone: Serginho

    • O Pedido (Elomar) Letra


      Já que tu vai lá pra feira

      Traga de lá para mim

      Água da fulô que cheira

      Um novelo e um carmim

       

      Traz um pacote de misse

      Meu amigo, ah, se tu visse

      Aquele cego cantador

      Um dia ele me disse

      Jogando um mote de amor

      Que eu havera de viver

      Por esse mundo

      E morrer ainda em flor

       

      Passa naquela barraca

      Daquela muié rezêra

      Onde almoçamo paca

      Panelada e frigideira

       

      Inté você disse uma loa

      Gabando a boia boa

      Que das casas da cidade

      Aquela era a primeira

       

      Traz pra mim umas brevidades

      Que eu quero matar a saudade

      Faz tempo que fui na feira

      Ai, saudade

       

      Ah, pois sim, vê se não esquece

      Que inda nessa lua cheia

      Nós vai brincar na quermesse

      Lá no riacho d'areia

       

      Na casa daquele homem

      Feiticeiro e curador

      Que o dia inteiro é homem

      Fio de Nosso Senhor

      Mas dispôis da meia-noite

      É lobisomem comedor

      Dos pagão que a mãe esqueceu

      Do batismo salvador

      Inda tem dois garrafão

      Com dois canguim responsadô

       

      Ah, pois sim, vê se não esquece

      De trazer ruge e carmim

      Ai, se o dinheiro desse

      Eu queria um trancelim

       

      Com mais três metro de chita

      Que é pra eu fazer um vestido

      E ficar bem mais bonito

      Que Madô de Juca Dido

      E Zefa de Nhô Joaquim

       

      Já que tu vai lá pra feira, meu amigo

      Traz essas coisinha para mim


      FICHA TÉCNICA:

      Violão: Vital Farias

      Viola: Joca

    • Lua Viva (Tito Livio / Lula Cortes) Letra


      A lua cheia é como a chave clara

      Que abre a porta do céu do sertão

      Que abre a mente com a chave nova

      Pro coração

       

      A lua viva com a mente cheia

      Cheia da vida pra nova visão

      Que abre a porta com a mente nova

      Pro coração

       

      E novamente a lua cheia brilha

      E faz um rastro claro pelo céu

      Como se a chave houvesse aberto a porta

      Do universo sobre o meu chapéu

       

      A lua cheia lá da Paraíba

      É como a chave cheia de ambição

      Que abre a porta para o universo

      Do coração


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo, regência e piano elétrico: Miguel Cidras

      Guitarra e viola: Joca

      Violão: Robson Jorge

      Baixo: Guil

      Sanfona: Zé Américo

      Bateria: Elber Bedaque

      Percussão: Marcos Amma

    • Aquarela Nordestina (Rosil Cavalcanti) Letra


      No Nordeste imenso

      Quando o sol calcina a terra

      Não se vê uma folha verde na baixa ou na serra

      Juriti não suspira, inhambu seu canto encerra

      Não se vê uma folha verde na baixa ou na serra

       

      Acauã bem no alto do pau-ferro canta forte

      Como que reclamando nossa falta de sorte

      Asa branca, sedenta, vai chegando na bebida

      Não tem água a lagoa

      Já está ressequida

       

      E o sol vai queimando o brejo, o sertão

      Cariri e agreste

      Ai, ai, meu Deus

      Tenha pena do Nordeste

       

      Laiá laiá laiá, laiá laiá laiá

      Laiá laiá laiá, laiá laiá


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo, regência e sanfona: Zé Américo

      Viola: Joca

      Bateria: Elber Bedaque

      Baixo: Guil

      Percussão: Marcos Amma

      Flautas: Eliane, Inês, Franklin e Zé Carlos

      Coro: Ed Wilson, Carlos Pedro, Tadeu Mathias, Rachel, Nilza, Elson e Loalva

    • Vem (Ser Navegador) (Marco Polo) Letra


      Vem

      Vou levar-te na beira do cais

      Onde nascem as flores do adeus

      E o deserto se encontra com o mar

       

      Vem

      No meu barco de velas azuis

      Por caminhos do vento e verão

      Até onde a certeza levar

       

      Cinco estrelas de sal no chapéu

      Sou vaqueiro das ondas sem fim

      E o horizonte é meu único lar

       

      Sempre chego onde pretendo ir

      Se já sei navegar furacões

      Muito mais oceanos de paz

       

      Toda vida é vida e vale viver

      Mesmo empurrando e tropeçando e o que for

      Eu contigo quero compreender

      O universo submarino do amor

       

      Raça é raça e quem quer ser, vencer

      Tem que estar pronto a todo instante

      A todo instante ser navegador

      Descobrir o rumo novo do amor


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo, regência e piano: Miguel Cidras

      Baixo: Paulo Cesar

      Bateria: Mamão

      Guitarra: Joca

      Violinos: Peraschi, Walter Hack, Carlos Hack, Virgílio Filho, Jorge Faini, Aizik Geller, Daltro e Pascoal

      Violas: Penteado, Frederick Stephany, José Dias de Lana e Nelson de Macedo

      Cellos: Alceu e Jorge Ranesvsky

    • Cajuína (Caetano Veloso) Letra


      Existirmos a que será que se destina?

      Quando tu me deste a rosa pequenina

      Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina

      Do menino infeliz não se nos ilumina

      Tão pouco turva-se a lágrima nordestina

      Apenas a matéria vida era tão fina

      E éramos olharmo-nos intacta retina

      A cajuína cristalina em Teresina


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo, regência e piano: Miguel Cidras

      Baixo: Guil

      Viola: Joca

      Sanfona: Zé Américo

      Percussão: Marcos Amma

      Violinos: Peraschi, Walter Hack, Carlos Hack, Virgílio Filho, Jorge Faini, Aizik Geller, Daltro e Pascoal

      Violas: Penteado, Frederick Stephany, José Dias de Lana e Nelson de Macedo

      Cellos: Alceu e Jorge Ranesvsky

    • Eu Queria (Roberto Martins / Mário Rossi) Letra


      Queria ser asfalto pra você pisar em mim

      Queria ser uma rosa por dentro do teu jardim

      Queria minha vida dentro do teu coração

      Queria beber água na palma da tua mão

       

      Queria ser o dono do teu corpo sedutor

      Queria inda gozar teus beijo embriagador

      Queria uma casinha entre os verdes pinheirais

      Pra nós morarmos juntos

      Só nós dois

      E ninguém mais


      FICHA TÉCNICA:

      Violão: Elba Ramalho

      Violas: Joca

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“Caetano é sempre um mestre”

 

Elba Ramalho é uma artista como poucas, que pode se orgulhar de chegar agora ao seu terceiro LP com um pique arrasador e uma carreira que mantém uma curva ascendente permanente nestes três anos. Consciente da importância de seu trabalho, onde a tônica predominante está totalmente voltada para suas raízes nordestinas. Elba Ramalho lança um novo disco que leva apenas seu nome como título, demonstrando em todos os ângulos do trabalho o amadurecimento musical que ela vem alcançando no decorrer de sua carreira.

Neste LP, como sempre, Elba Ramalho dá uma grande importância ao fato de manter no repertório uma coerência total com seus discos anteriores, seja no repertório escolhido ou na própria proposta do trabalho.

“Sempre existe um pensamento geral quando se faz um disco”, diz ela. “Uma ideia central, que a gente tenta seguir. Neste meu novo disco, o que mais se destaca é a proposta de me manter fiel à minha verdade original. Fiquei muito ligada também em fazer com que este disco fosse coerente com todo o trabalho que eu venho desenvolvendo desde o início da minha carreira, quando lancei o primeiro LP. Tem também um outro aspecto importante nisto tudo que é a minha preocupação em fazer um disco que chegasse mais perto do povo. Eu realmente me propus a fazer um disco claro, aberto, lúcido como os tempos que vivemos, que pudesse ser bem entendido pelo povo. Porque, afinal de contas, todo trabalho musical começa e termina no povo. Procurei dar um recado neste disco, que é o mesmo recado que dou nos meus shows, um toque nas pessoas, que pode ser entendido através das músicas que gravei”.

Para selecionar o repertório do novo disco, Elba Ramalho e seu produtor Mauro Motta ouviram mais de 300 músicas, que chegaram até eles das mais variadas maneiras. Quando foi feita a seleção final do disco, decidiram-se por incluir trabalhos de compositores novos, que Elba considera da maior importância: “Achei que devia dar uma força para alguns compositores que estão fazendo um trabalho muito bom, mas quase não encontram espaço para mostrá-lo. Bráulio Tavares, Fuba (Flávio Eduardo), Lula Côrtes, Marco Polo e Tito Lívio deram uma contribuição maravilhosa através de suas músicas”.

No novo disco, Elba Ramalho faz questão de ser acompanhada pela Banda Rojão, formada pelos músicos que acompanham ela desde o início da carreira. Em algumas faixas, participaram também Mamão (bateria), Paulo César (baixo) e Robson Jorge (violão).

Temporal, de Bráulio Tavares e Fuba, é a música que abre o LP com grande força na letra, de uma poesia expressiva e plena de vigor. Amanhã eu vou (Luiz Gonzaga e Beduíno) e Dono dos teus olhos (Humberto Teixeira) confirmam a preocupação constante de Elba em gravar sempre os autores nordestinos importantes e tradicionais. Foi por isso também que ela incluiu em seu disco a música Aquarela nordestina, de Rosil Cavalcanti, como homenagem ao falecido autor.

“O Rosil Cavalcanti foi um compositor que fez um dos trabalhos mais bonitos e importantes da música nordestina. Basta dizer que foi ele o compositor de Sebastiana e Meu cariri, que já viraram clássicos da música popular do Nordeste. Foi também parceiro de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. E o que eu estou sentindo é que a obra de Rosil está ficando esquecida; ninguém se preocupa em gravar suas músicas. Recentemente, estive na Paraíba e fiquei muito preocupada quando soube que estão querendo até apagar algumas fitas gravadas por ele que existem em arquivos de lá. A maneira que eu encontrei de dar um toque nessas pessoas foi regravando Aquarela nordestina, que além de tudo é uma música belíssima”.

“Já a música do Elomar”, Elba continua, “eu conhecia há vários anos. O pedido é uma das músicas mais bonitas que ele já fez e, inclusive, acho que Elomar é um dos nomes mais importantes da música brasileira, no momento. Para mim, ele é um mito, um menestrel, e tudo o que eu falar sobre ele ainda é pouco porque ele é muito mais. Ele fala a língua errada/certa do povo. Como dizia Manuel Bandeira, “o povo é quem fala mais gostoso o português do Brasil”. Outra coisa que me deixou muito feliz neste novo disco é que , finalmente, eu pude gravar uma música de Caetano Veloso. Regravei Cajuína e fico emocionada cada vez que ouço, porque o Caetano tem um significado todo especial para mim. Ele é o grande poeta, é sempre o mestre, o grande músico, grande artista, enfim, Caetano é o poeta geral, sob todos os aspectos”.

Elba fala das músicas de seu novo álbum com muito carinho. Oitava é da conterrânea Cátia de França, compositora a que ela, além de ser amiga, respeita e admira. Vem (Ser navegador), de Marco Polo, é uma das que ela mais curte. Lua viva, de Tito Lívio e Lula Côrtes, tem sabor de novidade e faz parte da proposta da cantora de ajudar difundindo o trabalho dos novos nomes da MPB.

Já a história da música Eu queria é mais pitoresca. “Eu aprendi essa música numa de minhas viagens a Fortaleza, com um repentista chamado Beija-Flor. Ele cantou, gostei muito e aprendi a cantar com ele, pensando que era dele mesmo. Depois, no disco da cantora Célia (de 1977), ouvi a música gravada com outro arranjo e uma pequena modificação na letra. Aí, descobri que os autores eram Roberto Martins e Mário Rossi. Decidi incluí-la neste LP”.

Elba é, antes de mais nada, um LP que combina perfeitamente com o pique de todo o trabalho da cantora que, de janeiro até agora, já fez mais de 50 shows, levando a música do Nordeste – a sua música – aos mais variados lugares do Brasil. Um disco que melódica e literariamente tem a mesma força do anterior, mas que, no entanto, vem mais livre e solto, mais rítmico e mais romântico. Mais ao encontro daquilo que ela própria sente com relação às músicas que canta. Enfim, uma proposta mais tranquila dentro do desenvolvimento e do amadurecimento de Elba Ramalho em sua arte e sua carreira.


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