Do Meu Olhar Pra Fora

2015

Do Meu Olhar Pra Fora
    • Olhando o Coração (Dominguinhos / Climério Ferreira) Letra


      O meu andar pelo mundo

      É um andar bem profundo

      Vai onde tem um forró

       

      Uma alegria, uma dança

      Meu coração não se cansa

      De uma festa encontrar

       

      Um dia talvez eu pare

      Ou qualquer dia encostar

      Talvez cabreiro eu encare

      E olhe o povo dançar

       

      Mas por enquanto eu nem tento

      Apreciar as estrelas

      Olhar pro céu e vê-las

      Piscarem luzes no chão

       

      Eu cá por mim me contento

      E sem querer ofendê-las

      Ao invés de olhar estrelas

      Olho pro meu coração

       

      Pois é assim meu andar

      Nos cafundós desse mundo

      Não me engano ou confundo

      Nem sei pra onde vou ir

       

      Só saberei se chegar

      Finalmente ao meu destino

      Não cometi desatino

      De planejar ao partir

       

      O meu andar pela vida

      É sem controle, errante

      É como sonho de amante

      Que acredita no amor

       

      E nessa trilha perdida

      No rumo desconhecido

      O meu andar atrevido

      Cura ferida e a dor

      Cura ferida e a dor

       

      O meu andar pela vida

      É sem controle errante

      É como sonho de amante

      Que acredita no amor

       

      E nessa trilha perdida

      No rumo desconhecido

      O meu andar atrevido

      Cura a ferida e a dor

      Cura a ferida e a dor


      FICHA TÉCNICA:

      Programação/beat: DJ Dolores

      Bateria: Tostão Queiroga

      Baixo, guitarra, kalimba e apitos: Yuri Queiroga

      Zabumba e percussão: Durval Pereira

      Percussão: Anjo Caldas

      Viola: Paulo Rafael

      Violão: Ney Conceição

      Acordeom: Rafael Meninão

      Flautas e pífanos: Dirceu Leite

       

    • Fazê o Quê (Pedro Luís) Letra


      Prendi as coisa

      Faiscando a ferradura

      Na minha cabeça dura

      E fui no lombo do cavalo

       

      Ao galopá-lo

      Fui salvando minha vida

      Que eu achava já perdida

      Pelas esquinas do mundo

       

      De vagabundo

      Poeta tem muito pouco

      Menos médico, mais louco

      Vai enchendo a cabeça

       

      Pra que apareça

      Agarrada no seu verso

      Ideia prum universo

      Mais tranquilo e mais humano

       

      Traçando plano

      Reta, curva ou ladeira

      Bosque, várzea ou ribanceira

      Vai seguindo o arquiteto

       

      Se tem Hermeto

      Bispo, Marley, Gentileza

      Isso só me dá certeza

      Da nobreza que dá certo

       

      Vou fazer, vou fazer (o que?)

      Música pra enriquecer

      Os corações e o planeta

      Basta um papel e uma caneta


      FICHA TÉCNICA:

      Programação/beat: DJ Dolores

      Bateria: Tostão Queiroga

      Baixo, guitarra e monotron: Yuri Queiroga

      Alfaia e percussão: Lucas dos Prazeres

      Guitarra e viola: Paulo Rafael

      Trombone: Nilsinho Amarante

      Trompete: Enok Chagas

      Sax tenor: Gilberto Pontes

      Sax barítono: Maestro Spok

      Coro: Elba Ramalho, Kika Tristão, Jussara Lourenço, Bettina Graziani, Luã Mattar, Alessandro Rocha, Léo Araujo e Marcus Vinicius

    • Só pra Lembrar (Zélia Duncan / Dani Black) Letra


      Quando a noite

      For longa demais

      A escuridão

      Roubar sua paz

       

      Posso ser eu

      O risco pra uma faísca

      Posso ser eu

      O lume que se arrisca

      Solo no breu

      Fagulha imune a dor

      Só pra lembrar

      Que você tem um amor

       

      Quando a espera

      For tempo demais

      A esperança

      Cansada e gasta no chão

       

      Posso ser eu

      O braço que te carrega

      Posso ser eu

      O laço que te entrega

      Fé no apogeu

      A mão que rega a flor

      Só pra lembrar

      Que você tem um amor

       

      Pode a razão desabar

      Deixa cair o perdão em gotas

      Pode o oásis secar

      Eu buscarei a mais clara das fontes

      Só pra lembrar

      Só pra lembrar

      Que você tem meu amor

       

      Leito coberto de sonho e mel

      De peito aberto bem perto do céu

      Nunca é deserto nem nada é tão mau

      Quando se tem um amor só seu


      FICHA TÉCNICA:

      Bateria: Thomas Harres

      Baixo: Pedro Dantas

      Percussão: Anjo Caldas

      Agogô: Luã

      Guitarra e agogô: Yuri Queiroga

      Violão de nylon e violão de aço: Marcos Arcanjo

      Clarinete e flauta: Dirceu Leite

      Cello: Lui Coimbra e Ricardo Santoro

      Viola: Jessé Pereira

      Arranjo de cordas: Ney Conceição

    • É o Que Me Interessa (Lenine / Dudu Falcão) Letra


      Daqui desse momento

      Do meu olhar pra fora

      O mundo é só miragem

      A sombra do futuro

      A sobra do passado

      Assombram a paisagem

       

      Quem vai virar o jogo

      E transformar a perda

      Em nossa recompensa

      Quando eu olhar pro lado

      Eu quero estar cercado

      Só de quem me interessa

       

      Às vezes é um instante

      A tarde faz silêncio

      E o vento sopra a meu favor

      Às vezes eu pressinto

      E é como uma saudade

      De um tempo que ainda não passou

       

      Me traz o teu sossego

      Atrasa o meu relógio

      Acalma a minha pressa

      Me dá sua palavra

      Sussurra em meu ouvido

      Só o que me interessa

       

      A lógica do vento

      O caos do pensamento

      A paz na solidão

      A órbita do tempo

      A pausa do retrato

      A voz da intuição

       

      A curva do universo

      A fórmula do acaso

      O alcance da promessa

      O salto do desejo

      O agora e o infinito

      Só o que me interessa


      FICHA TÉCNICA:

      Harpa: Cristina Braga

      Baixo, guitarra e synth: Yuri Queiroga

      Violão e synth: Luã

      Cello: Lui Coimbra

    • Nossa Senhora da Paz (Clayton Barros / Emerson Calado / Lirinha / Nego Henrique / Rafael Almeida) Letra


      Nossa Senhora da Paz

      A bailarina do circo

      Vem beijar a pele da cidade

       

      As feridas

      Os jardins

      A pressão

      E o motor

       

      Nossa Senhora dos Sonhos

      A trapezista do circo

      Venha descansar na minha cama

       

      Traga toda luz que há no céu

      Traga toda luz que há no chão

      Leva meu atalho e minha sorte

      No movimento da rua


      FICHA TÉCNICA:

      Harpa: Cristina Braga

      Bateria: Tostão Queiroga

      Alfaia e percussão: Lucas dos Prazeres

      Pandeirão e percussão: Anjo Caldas

      Baixo e guitarra: Yuri Queiroga

      Guitarra: Paulo Rafael

      Violão: Marcos Arcanjo

      Cello: Lui Coimbra

      Coro: Luã, Alessandro Rocha, Léo Araujo e Marcos Vinícius

    • Contrato de Separação (Dominguinhos / Anastácia) Letra


      Olha, essa saudade

      Que maltrata o meu peito

      É ilusão

      E por ser ilusão

      É mais difícil de apagar

       

      Ela vai me consumindo lentamente

      Ela brinca com meu peito

      E leva sempre a melhor

       

      Eu quis fazer com ela

      Um contrato de separação

      Negou-se então a aceitar

      Sorrindo da minha ilusão

       

      Só tem um jeito agora

      É tentar de vez me libertar

      Brigar com a lembrança

      Pra não mais lembrar


      FICHA TÉCNICA:

      Acordeom: Toninho Ferragutti

      Arranjo de cordas e baixo acústico: Ney Conceição

      Cello: Lui Coimbra e Janaina Salles

      Viola: Ricardo Volker Taboada

    • Nos Ares de Lisboa (Dominguinhos / Fausto Nilo) Participação especial: Carminho Letra


      Uma pombinha branca

      Nos ares de Lisboa

      A procurar seu ninho

      Voa, voa

       

      Há flores no deserto

      Há pedras no caminho

      Há lágrimas na rua

      Lua, lua

       

      Minha saudade é tanta

      Que espanta o passarinho

      E a luz que vem do vinho

      Dá vontade de voar

       

      Um Passarinho Enganador

      (Dominguinhos / Fausto Nilo)


      Você voou do nosso ninho

      Meu passarinho enganador

      O juazeiro chorou

      O riacho emudeceu

      E o meu céu

      Já não tem mais passarinhos

      Você e eu

       

      Não tenha pena de mim

      Vendo a paisagem chorar

      Descansei meu olhar

      Em outro olhar também

       

      Ninguém conhece o amor sem chorar

      Nem acontece uma dor sem prazer

      Você foi a seca ruim

      E depois temporal

      Afinal você foi o meu bem querer

       

      Um rio passou por mim

      Acariciou meu sertão

      Fez a saudade chover

      Dentro do meu coração

       

      Felicidade vai

      Felicidade vem

      Você é o meu inverno

      E o meu sol também


      FICHA TÉCNICA:

      Vozes: Elba e Carminho

      Bandolim: Armandinho

      Acordeom: Toninho Ferragutti

      Baixo acústico: Ney Conceição

      Viola portuguesa: Diogo Clemente

    • Árvore (Edson Gomes) Letra


      Ando sobre a terra

      E vivo sob o sol

      E as

      E as minhas raízes

      Eu balanço

      Eu balanço

      Eu balanço

       

      Todo santo dia

      Pois todo dia é santo

      E eu

      Sou uma árvore bonita

      Que precisa ter os seus cuidados

       

      Vem me regar, mãe

      Vem me regar

      Vem me regar, ô, mãe

      Vem me regar


      FICHA TÉCNICA:

      Bateria: Sanzyo Dub

      Baixo: Chico Tchê

      Percussão: Anjo Caldas

      Guitarra base: Jayme Bettas

      Guitarra solo: Yuri Queiroga

      Violão: Luã

      Órgão e teclado: João Nogueira

      Trombone: Nilsinho Amarante

      Trompete: Enok Chagas

      Sax tenor: Gilberto Pontes

      Sax barítono: Maestro Spok

      Coro: Gil Miranda e Gilce de Paula

    • Patchuli (Chico César) Participação especial: Chico César Letra


      Que cheiro bom é esse

      Que eu tô sentindo aqui

      Patchuli, patchuli

      Patchuli, patchuli

       

      Cheira que nem fogueira

      Que queima no Cariri

      Patchuli, patchuli

      Patchuli, patchuli

       

      Cheiro de mato queimado

      De coivara no roçado

      Que há dentro de mim e ti

      Eita cheiro bom danado

      Parece um sonho acordado

      Que se sonha sem dormir

      Patchuli, patchuli

      Patchuli, patchuli

       

      Nesse baile perfumado

      Mesmo quando tô parado

      O chão parece bulir

      Solto ou empareado

      Danço sem sentir enfado

      Na dança do patchuli

      Patchuli, patchuli

      Patchuli, patchuli


      FICHA TÉCNICA:

      Vozes: Elba e Chico César

      Bateria e percussão: Sid3

      Baixo e synth: Yuri Queiroga

      Guitarra: Gabriel Melo

      Violão: Luã

      Arranjo de metais e trombone: Nilsinho Amarante

      Sax: Gilberto Pontes e Maestro Spok

      Trompete: Enok Chagas

    • La Noyée (Serge Gainsbourg) Letra


      Tu t'en vas à la dérive

      Sur la rivire du souvenir

      Et moi, courant sur la rive

      Je te crie de revenir

       

      Mais, lentement, tu t'éloignes

      Dans ta course éperdue

      Peu à peu, je te regagne

      Un peu de terrain perdu

       

      De temps en temps, tu t'enfonces

      Dans le liquide mouvant

      Ou bien, frôlant quelques ronces

      Tu hésites et tu m'attends

       

      En te cachant la figure

      Dans ta robe retroussée

      De peur que ne te défigurent

      Et la honte et les regrets

       

      Tu n'es plus qu'une pauvre épave

      Chienne creve au fil de l'eau

      Mais je reste ton esclave

      Et plonge dans le ruisseau

       

      Quand le souvenir s'arrête

      Et l'océan de l'oubli

      Brisant nos coeurs et nos têtes

      A jamais, nous réunit


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo, piano, acordeom e cravo: Marcelo Jeneci

      Baixo: Yuri Queiroga

      Violão e guitarra: Luã

    • Risoflora (Chico Science) Letra


      Eu sou um caranguejo, estou de andada

      Só por sua causa

      Só por você, só por você

      E quando estou contigo eu quero gostar

      E quando estou um pouco mais junto

      Eu quero te amar

       

      E aí deixar de lado

      Como a flor que eu tinha na mão

      E aí esqueci na calçada

      Só por esquecer

      Apenas porque você

      Não sabe voltar pra mim

       

      Ô, Risoflora

      Vou ficar de andada até te achar

      Prometo, meu amor, vou me regenerar

       

      Ô, Risoflora

      Não vou dar mais bobeira dentro de um caritó

      Ô, Risoflora, não me deixe só

       

      Eu sou um caranguejo e quero gostar

      Enquanto estou um pouco mais junto

      Eu quero te amar

      E acho que você não sabe o que é isso, não

      E, se sabe, pelo menos você pode fingir

      E em vez de cair em suas mãos

      Preferia os seus braços

      E em meus braços te levarei como uma flor

      Pra minha maloca na beira do rio, meu amor


      FICHA TÉCNICA:

      Harpa: Cristina Braga

      Bateria: Tostão Queiroga

      Percussão: Sid3

      FX: DJ Dolores

      Baixo e guitarra: Yuri Queiroga

      Guitarra: Luã

    • Ser Livre (Arlindo Cruz / Zeca Pagodinho) Letra


      Vou romper de vez as algemas

      Dar ponto final aos problemas

      Livre, bem livre

      Livre

       

      Vou viver um mundo sem leis

      E sem ser senão ou talvez

      Ser livre, livre

      Livre

       

      Vou acreditar no futuro

      E sair de cima do muro

      Não vou mergulhar no escuro

      Não vou sufocar o meu canto

       

      Pelos quatro cantos da vida

      Procurar a paz esquecida

      Caminhar pelos bons caminhos

      Num jardim com flor, sem espinhos

       

      Na aurora de um novo dia

      Hei de ter amor e algeria

      Contruir a paz no meu ninho

      E cantar com os passarinhos

       

      Livre, livre

      Livre, bem livre

      Livre, livre

      Ser livre

      Livre


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo, synth e programação: Ivo Senra

      Guitarra: Luã

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A visão livre de Elba Ramalho nos caminhos da música


Em um de seus melhores e mais arrojados discos, Do meu olhar pra fora, cantora exterioriza humanismo positivista com som pop contemporâneo formatado pelos produtores Luã Mattar e Yuri Queiroga


“O meu andar pelo mundo

É um andar bem profundo

Vai onde tem um forró

Uma alegria, uma dança

Meu coração não se cansa

De uma festa encontrar...”

 

Os versos iniciais da primeira das 12 músicas do 32º álbum da discografia oficial de Elba Ramalho, Do meu olhar pra fora, sintetizam a caminhada desta grande cantora do Brasil. Intitulada Olhando o coração, a música é uma parceria inédita de Dominguinhos (1941 – 2013) com Climério Ferreira que parece feita sob medida para o canto valente da Leoa do Norte. Olhando o coração é um perfeito cartão de visitas para introduzir este disco que marca a estreia de Elba na gravadora Coqueiro Verde Records. O acordeom de Rafael Meninão se harmoniza com as batidas eletrônicas do DJ Dolores e com os pífanos de Dirceu Leite num arranjo que remete ao balanço de ritmos como xote e baião com pegada pop contemporânea.


Mantida na pressão, essa sonoridade pop contemporânea é mérito do paraibano Luã Mattar e do pernambucano Yuri Queiroga, os dois produtores que formataram Do meu olhar pra fora no estúdio Gigante de Pedra, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Fruto da união de Elba com o ator e cantor Maurício Mattar, Luã cresceu e agora aparece como um produtor antenado, cheio de jovialidade e de  informações cruzadas com as de Yuri, que já havia trabalhado com Elba num dos álbuns da cantora mais aclamados pela crítica, Qual o assunto que mais lhe interessa?, de 2007. A sintonia entre a cantora e os produtores afinou um dos melhores e mais arrojados discos de Elba.


O título do álbum – Do meu olhar pra fora, extraído de versos da canção É o que me interessa (Lenine e Dudu Falcão, 2008) – traduz com precisão o espírito do disco e o momento de maturidade, de colheita, que pauta o canto livre de Elba. Feito com liberdade, palavra-chave para o entendimento desse trabalho, Do meu olhar pra fora expande o legado dessa celebrada intérprete de veia teatral que carrega a bandeira do seu Nordeste com orgulho e com independência desde os anos 1970, década em que migrou da Paraíba natal para a cidade do Rio de Janeiro (RJ) em busca de maior projeção como cantora. Mas que há muito já ficou maior do que o Nordeste.


Com as raízes fincadas na terra de Elba, mas com as antenas ligadas no mundo, Do meu olhar pra fora exterioriza o humanismo positivista que caracteriza não somente o canto da intérprete, mas também o discurso e a postura da cidadã diante da vida e do universo. Elba tem pregado sua fé católica no bem e nos homens de bem. Sem

procurar catequizar seu imenso público, a cantora vem imprimindo na sua música a harmonia e a paz que regem sua vida dentro e fora dos palcos e dos estúdios.


Mas paz, no dicionário de Elba, rima com festa, com dança, com alegria de viver. Formatado com gravações adicionais em estúdios de São Paulo (SP), Olinda (PE) e Recife (PE), Do meu olhar pra fora não nega a força de sua raça. “Vou fazê, vou fazê / Música pra enriquecer / Os corações e o planeta”, dá a pista nos versos arretados de Fazê o quê? (Pedro Luís), música lançada pelo coletivo carioca Pedro Luís e a Parede em seu primeiro álbum, Astronauta Tupy, de 1997. Esse misto de rap-repente com embolada ganha explosiva batida roqueira no arranjo que combina um naipe de metais em brasa com a guitarra de Paulo Rafael e as programações do DJ Dolores.


Na sequência, Só pra lembrar é uma parceria inédita do compositor paulista Dani Black com a cantora e compositora fluminense Zélia Duncan. O acento pop da faixa sublinha a pressão posta pelos produtores Luã Mattar e Yuri Queiroga no arranjo moldado com cordas orquestradas por Ney Conceição e com flauta (do mestre nos sopros Dirceu Leite) que remete ao universo musical dos Pífanos de Caruaru (PE). Entre raízes e antenas, Elba dá sua voz maturada a versos que brilham como fachos de luz em escuridão existencial. Na faixa, a cantora celebra o amor, alento em tempo de esperanças cansadas.


Ao mesmo tempo em que faz a festa, com a explosão de energia que a tornou uma das cantoras de maior potência e animação no palco, Elba Ramalho traz também sossego e acalma pressas em mundo assombrado pelas sobras do passado e pelas sombras do futuro. Por isso, a oportuna lembrança de É o que me interessa (Lenine e Dudu Falcão, 2008) – uma daquelas baladas encantadoras nascidas da inspiração melódica do pernambucano Lenine, companheiro de Elba nas andanças atrevidas da Leoa – faz todo o sentido no disco. A harpa celestial de Cristina Braga sobressai no arranjo adequado ao tom mais sereno da canção.


Luxo em qualquer gravação, a harpa de Cristina Braga reaparece na faixa seguinte, Nossa Senhora da Paz (Clayton Barros, Emerson Calado, José Paes Lira, Nego Henrique e Rafael Almeida, 2002), música que traduz o olhar atual de Elba diante do mundo. Mas o tom celestial reside mais no sentimento posto pela cantora na interpretação dessa música lançada há 13 anos pelo já desativado grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado. Composição do  primeiro álbum do grupo, Nossa Senhora da Paz ganha feitio de oração no canto de Elba, mas o incendiário mix de tambores e guitarras do arranjo tem a pressão que é motor e marca pop do álbum Do meu olhar pra fora.


Instante de melancolia em álbum repleto de energia positiva, Contrato de separação reconecta Elba com o cancioneiro do cantor, compositor e sanfoneiro pernambucano José Domingos de Morais, o Seu Domingos – Dominguinhos, para o Brasil. O fato de três das 12 músicas do álbum Do meu olhar pra fora levarem a assinatura de Dominguinhos diz muito sobre a forte ligação que sempre uniu Elba ao herdeiro de Luiz Gonzaga (1912 – 1989), eterno Rei do Baião. Tanto que Elba chegou a gravar e assinar um álbum com Dominguinhos. Lançado em 2005, este disco teve repertório centrado no cancioneiro autoral de Seu Domingos. Foi uma espécie de best of da obra do sanfoneiro. Mas Contrato de separação não integrou o repertório desse disco. O que legitima a inclusão em Do meu olhar pra fora dessa canção doída de saudade, composta por Dominguinhos em parceria com sua então mulher Anastácia, lançada na voz sublime de Nana Caymmi em 1979 e ora revivida por Elba em registro valorizado pelo toque magistral do acordeom de Toninho Ferragutti. Esse acordeom tem o poder de evocar na faixa todo o rico universo musical de Dominguinhos. É como se o mestre estivesse na gravação, evocado pelas teclas manuseadas com precisão por Ferragutti.


Das três músicas de Dominguinhos cantadas por Elba em Do meu olhar pra fora, duas são inéditas em disco. Além de Olhando o coração, a outra novidade é Nos ares de Lisboa – Um passarinho enganador, fado que mostra que, tal como o canto de Elba, a obra de Dominguinhos sempre cruzou oceanos rítmicos, sem fronteiras, embora esteja sempre associada ao universo musical da Nação Nordestina. Da lavra poética do compositor cearense Fausto Nilo, os versos da música são cantados por Elba em dueto com a portuguesa Carminho, a mais aplaudida cantora de fado da atualidade. A cumplicidade feminina das intérpretes é fundamental para realçar toda a beleza dessa canção que embute a melancolia típica dos fados na travessia que a conduz do sertão aos ares de Lisboa pelo toque do acordeom de Toninho Ferragutti, do bandolim de Armandinho e da viola portuguesa de Diogo Clemente, músico lusitano especialmente convidado para tocar no disco.


A rota pop universal do CD Do meu olhar pra fora inclui escala na Jamaica, feita através da Bahia. Árvore é iluminado reggae de autoria do cantor e compositor baiano Edson Gomes, lançado pelo autor em seu terceiro álbum, Campo de batalha, de 1991. Gomes é um dos artistas brasileiros mais compromissados com a ideologia positiva do reggae. Na gravação de sua música por Elba, os metais abrilhantam a abordagem da cantora. De certa forma, é como se a árvore do título simbolizasse a figura da própria Elba, balançando com suas raízes em suas andanças sobre a terra, munida de amor e música.


Inédita de Chico César, gravada por Elba com a participação do cantor e compositor paraibano, Patchuli perfuma o baile pop da cantora no toque vigoroso de metais orquestrados por Nilsinho Amarante. Nessa faixa, como em muitas outras do disco Do meu olhar pra fora, Elba parte do Nordeste para alcançar o mundo. E, nessa viagem pop por sons universais, o destino mais surpreendente é o apontado por La noyeé, música feita pelo compositor francês Serge Gainsbourg (1928 - 1991) há 44 anos para a trilha sonora do filme Romance de um ladrão (Iugoslávia / França / Itália, 1971). O criativo arranjo da faixa, que dialoga de forma moderna com as tradições da chanson française, é de Marcelo Jeneci, músico polivalente que toca piano, acordeom e cravo nessa gravação que se conecta, pelo idioma francês, como registro de La vie en rose (1945) - sucesso da cantora francesa Edith Piaf (1915 – 1963) – feito por Elba há 24 anos para um álbum em que também ampliou seus horizontes estéticos, Felicidade urgente, produzido em 1991 por Nelson Motta.


De Paris, o disco migra para a lama do mangue pernambucano, revolvida com a oportuna regravação de Risoflora (Chico Science, 1994), música menos badalada do primeiro álbum da banda pernambucana Nação Zumbi, pedra fundamental do movimento recifense dos anos 1990 batizado de Mangue Beat. Ao dar voz a Risoflora, Elba faz brotar uma pungente declaração de amor de um caranguejo arrependido que promete se regenerar. Para quem não sabe, Risoflora é música feita pelo compositor pernambucano Chico Science (1966 – 1997), mentor da Nação, para reconquistar o amor de uma ex-namorada, Maria Eduarda Belém, apelidada Maria Duda. Sem anular o romantismo, bissexto no universo incandescente do Mangue Beat, o arranjo da gravação de Elba é inserido em ambiência noise de progressiva intensidade.


No fim, Ser livre arremata o disco com o reforço do conceito de liberdade que pautou a criação do álbum Do meu olhar pra fora. A música é parceria inédita do bamba Arlindo Cruz com Zeca Pagodinho. Mas quem espera ouvir um samba – especialidade dos compositores cariocas – vai se deparar com uma canção de tom etéreo, viajante, condizente com a bela arte gráfica do disco, assinada por Daniel Edmundson. O arranjo de Ivo Senra foi urdido somente com o mix da guitarra de Luã Mattar com as programações e sintetizadores pilotados pelo próprio Senra.


“Vou romper de vez as algemas

(...)

Caminhar pelos bons caminhos

Num jardim com flor sem espinhos”.


Os versos de Ser livre se conectam com os de Olhando o coração pela mesma fina sintonia que liga as 12 músicas do disco. Em última instância, Do meu olhar pra fora é álbum conceitual sobre a caminhada de sua cantora ao longo de quatro décadas. Um andar atrevido que fez o canto bravo de Elba Maria Nunes Ramalho se fazer ouvir em todo o Brasil, desconstruindo a imagem masculinizada da mulher paraibana que estava enraizada no imaginário nacional com doses maciças de feminilidade, energia e valentia. Nascida em 17 de agosto de 1951, a Leoa sobreviveu na selva das cidades com uma voz que ganhou graves, maturidade, experiência e, sobretudo, liberdade nessa caminhada. Do meu ohar pra fora é fruto de tudo isso. É mais um firme passo de Elba Ramalho em direção ao infinito, ao eterno. Se os pés estão fincados nas suas raízes orgulhosamente nordestinas, as antenas captam os sinais do mundo e o espírito segue livre pelos caminhos do amor e da música.


Mauro Ferreira

Fevereiro de 2015

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