O OURO DO PÓ DA ESTRADA

2018

O OURO DO PÓ DA ESTRADA
    • Calcanhar (Yuri Queiroga / Manuca Bandini / texto incidental: Bráulio Tavares)  Participação especial: Barca dos Corações Partidos Letra


      Feito colar de hippie

      Venha mais eu

      Noite, dia, corpo, estrada

      Até que um calo cresça no pé

      Que as mãos se apoiem no chão

      Até que os dedos rachem no asfalto

      Carrega eu quando der

      Por enquanto agora

      Eu vou seguir pelo mundo afora

      Eu vou seguir pelo mundo

       

      Até no chão

      No chão de areia

      Quente pedra eu vou pisar

      Eu vou seguir você até doer o calcanhar

      Até no chão de areia

      Quente pedra eu vou pisar

      Eu vou seguir você até doer o calcanhar

       

      Feito ou desfeito, é fato

      Se a dor não for fatal

      Dia e noite, madrugada

      Até que um galo encante amanhã

      A manhã ensolarada

      Até a terra achar o chão numa pisada

      Carrega eu se der quando for embora

      Eu vou seguir você pelo mundo agora

      Eu vou seguir você pelo mundo

       

      No frio da serra, no sol da baixada

      Você não escuta, mas eu vou atrás

      No meio das lanças dos canaviais

      Varando floresta, rompendo calçada

      No mangue, no rio, na noite estrelada

      Teu cheiro é o rastro que vai me guiar

      Pisando em navalhas eu vou caminhar

      O corpo mandando, os olhos pedindo

      Sonhando e sofrendo, sangrando e sorrindo

      Na beira do mundo querendo voar


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo de base, baixo, guitarra, synth e beat: Yuri Queiroga

      Bateria: Tostão Queiroga

      Percussão: Anjo Caldas

      Zabumba: Durval Pereira

      Violão: Marcos Arcanjo

      Sanfona: Rafael Meninão

      Barca dos Corações Partidos

      Rabeca: Beto Lemos

      Sanfona e vocal: Eduardo Rios

      Vocais: Fábio Enriquez, Ricca Barros, Alfredo Del-Penho, André Alves e Renato Luciano

    • Girassol da caverna (Lula Queiroga) Participação especial: Ney Matogrosso Letra


      Holofote riscando a treva aberta

      Suicídio da luz no breu sem fim

      Iluminando tudo ao redor de mim

      Tenho o riso febril de quem se oferta

      Sou pedaço de terra descoberta

      Por um navegador que sou eu mesmo

      E por mais que a nau viaje a esmo

      Em meu peito a rota é sempre certa

       

      Eu sou um girassol e busco a luz

      Mas nasci dentro de uma caverna

      Com algemas de folhas presa à perna

      E horizonte nenhum que me guiasse

      Eu pensei que aí tudo acabasse

      Quando em mim teu amor fez moradia

      Hasteou esse sol que acenderia

      O planeta inteiro se precisasse

       

      Eu sou um girassol indignado

      E a voz que me rege é a verdade

      Minhas pétalas clamam liberdade

      Para o meu coração agoniado

      Nesse circo de arame farpado

      Palhaço de poucas ilusões

      Cantando na festa dos leões

      Com metade do riso amordaçado

       

      Bastaria vagar pela cidade

      Para ver a angústia em cada face

      E por mais que os olhos eu fechasse

      Sentiria o cheiro da carniça

      E o dedo maior da mão postiça

      Semeou pelas praças, pelos becos

      Quem chorava já tem os olhos secos

      De esperar os fantasmas da justiça

       

      Eu não li o epílogo da peça

      Mas pressinto no jeito dos atores

      O começo do fim desses horrores

      A maldade que na razão tropeça

      E o circo da história já tem pressa

      Pra bater o martelo contra a mesa

      E cantar voz bem alta à natureza

      Pra esse sol exilado que regressa


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo de base: Yuri Queiroga e Tostão Queiroga

      Arranjo de sopros, flauta, pífano e sax: Henrique Albino

      Trombone: Nilsinho Amarante

      Trompete: Enok Chagas

      Bateria: Tostão Queiroga

      Percussão: Lucas dos Prazeres

      Violão: Marcos Arcanjo

      Baixo, guitarra e synth: Yuri Queiroga

      Vocais: Surama Ramos e Sue Ramos

    • Girassol (Toni Garrido / Da Ghama / Lazão / Bino Farias / Pedro Luís) Letra


      A verdade prova que o tempo é o senhor

      Dos dois destinos, dos dois destinos

      Já que pra ser homem tem que ter

      A grandeza de um menino, de um menino

      No coração de quem faz a guerra

      Nascerá uma flor amarela

      Como um girassol

       

      A favor da comunidade

      Que espera o bloco passar

      Ninguém fica na solidão

      Embarca com suas dores

      Pra longe do seu lugar

       

      A favor da comunidade

      Que espera o bloco passar

      Ninguém fica na solidão

      O bloco vai te levar

      Ninguém fica na solidão

       

      A verdade prova que o tempo é o senhor

      Dos dois destinos, dos dois destinos

      Já que pra ser homem tem que ter

      A grandeza de um menino, de um menino

       

      No coração de quem faz a guerra

      Nascerá uma flor amarela

      Como um girassol

      Como um girassol

      Como um girassol amarelo, amarelo

       

      Todo dia, toda hora

      Na batida da evolução

      A harmonia do passista

      Vai encantar a avenida

      E todo o povo vai sorrir, sorrir, sorrir

      E todo o povo vai sorrir, sorrir, sorrir


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo e regência de cordas: Arthur Verocai

      Arranjo de base: Yuri Queiroga e Tostão Queiroga

      Voz e palmas: Elba Ramalho

      Percussão e palmas: Anjo Caldas

      Zabumba: Durval Pereira

      Baixo, guitarra e palmas: Yuri Queiroga

      Bateria e palmas: Tostão Queiroga

      Sanfona: Rafael Meninão

      Violão: Marcos Arcanjo

      Vocais: Surama Ramos e Sue Ramos

      Harpa: Cristina Braga

      Violinos: Marluce Ferreira, Michel Bessler, Nikolay Sapoundjiev e William Isaac

      Cellos: Lisiane de los Santos e Emilia Valova

      Viola: Samuel Passos

    • Na Areia (Juliano Holanda) Letra


      Tenho andado tão serena

      Sinto bem meus pés no chão

      Trago o sol nos meus cabelos

      E o luar nas minhas mãos

       

      Já não tenho tanta pressa

      Sinto o tempo me dizer

      Passa o rio e a vida é essa

      Vejo o dia amanhecer

      Eu me deixo amanhecer

       

      Tenho andado tão serena

      O vermelho me atravessa

      Qualquer brisa me desperta

      Já não ando tão depressa

       

      Tenho sede de sorrisos

      Me refaço nos abraços

      Sei que a luz que rege os astros

      Pela imensidão do espaço

      Também vai guiar meus passos

       

      Deixo a hora lá fora

      Que eu não vou ligar

      Deixo o samba na sombra

      Que é pra não secar

      Deixo o vento dar na teia

       

      Eu sei que a vida é breve

      E não tarda a passar

      Deixo cair de leve

      Que é pra não quebrar

      O silêncio pisando bem devagar

      Cuida pra não apagar

      O caminho que eu fiz na areia


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo e regência de cordas: Zé Américo Bastos

      Arranjo de base: Yuri Queiroga e Tostão Queiroga

      Violão: Marcos Arcanjo

      Sanfona: Marcelo Jeneci

      Bateria: Tostão Queiroga

      Zabumba: Durval Pereira

      Percussão: Anjo Caldas

      Guitarra: Yuri Queiroga

      Baixo acústico: Ney Conceição

      Cello: Márcio Mallard

      Violinos: Daniel Guedes e Ramon Feitosa

    • Princesa do meu lugar (Belchior) Letra


      Se me der vontade de ir embora

      Vida adentro, mundo afora

      Meu amor, não vá chorar

       

      Ao ver que o cajueiro anda florando

      Saiba que estarei voltando

      Princesa do meu lugar

       

      A terra toda é uma ilha

      Se eu ligo meu radinho de pilha

      Terás notícias de mim

      Entre as carnaubeiras

       

      Meu amor é um passarinho

      Pode fugir de tua mão

      Não dances, não dances pelo caminho

      Ou não vou-me embora, não

       

      Não há pranto que apague

      Dos meus olhos o clarão

      Nem metrópole onde eu não veja

      O luar do sertão


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo e regência de cordas: Zé Américo Bastos

      Arranjo de base, baixo, guitarra e violão aço: Yuri Queiroga

      Sanfona: Rafael Meninão

      Violão: Marcos Arcanjo

      Zabumba: Durval Pereira

      Percussão: Anjo Caldas

      Bateria: Tostão Queiroga

      Cello: Márcio Mallard

      Violinos: Daniel Guedes e Ramon Feitosa

    • Oxente (Marcelo Jeneci / Chico César) Letra


      Oxente

      Onde é que tá?

      Onde é que tá?

      Tá aqui na minha frente

       

      Busquei

      Nas veredas da cidade

      Ser inteiro e não metade

      Pois metade eu me sinto só

       

      Sonhei

      Com amor e plenitude

      Descobri que o sonho ilude

      E até a pedra vira pó

       

      Inda hoje eu tô

      Procurando assim

      Quero achar o amor

      Que é pra mim

       

      Eu sei

      Amizade é diferente

      Mas o coração da gente

      Pede sempre um pouco de paixão

       

      Achei

      Meus amigos, sou contente

      Quem souber me oriente

      Ter o céu aqui beijando o chão


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo de base: Yuri Queiroga e Marcelo Jeneci

      Zabumba e percussão: Durval Pereira

      Sanfona, synth e vocal: Marcelo Jeneci

      Beat, baixo e guitarra: Yuri Queiroga

      Bateria: Tostão Queiroga

      Violão: Marcos Arcanjo

    • Se não tiver amor (George Sauma) Letra


      Se não tiver amor

      Não tem graça

      Se não tiver amor

      Não dá certo

      Se não tiver amor

      Nem cachaça

      Se não tiver amor

      Nem aperto

       

      Mas se tiver amor

      Eu me lanço

      Quando se tem amor

      É tão lindo

      Amor é nossa última chance

      Amor é meu amor bem-vindo

       

      Se não tiver amor

      Eu me esqueço

      Se não tiver amor

      Já me esqueça

      Se não tiver amor

      Enlouqueço

      Se não tiver amor

      Paciência

       

      Mas se tiver amor

      O sol chega

      Quando se tem amor

      De verdade

      Amor é nossa última entrega

      Amor é meu amor, saudade


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo de base: Yuri Queiroga e Tostão Queiroga

      Baixolão, cavaco e guitarra slide: Yuri Queiroga

      Sanfona: Marcelo Jeneci

      Bateria: Tostão Queiroga

      Percussão: Anjo Caldas

      Violão: Marcos Arcanjo

      Vocais: Surama Ramos e Sue Ramos

    • Se tudo pode acontecer (Arnaldo Antunes / Paulo Tatit / Alice Ruiz / João Bandeira) Letra


      Se tudo pode acontecer

      Se pode acontecer qualquer coisa

      Um deserto florescer

      Uma nuvem cheia não chover

       

      Pode alguém aparecer

      E acontecer de ser você

      Um cometa vir ao chão

      Um relâmpago na escuridão

       

      E a gente caminhando de mão dada

      De qualquer maneira

      Eu quero que esse momento dure

      A vida inteira

       

      E além da vida ainda de manhã

      No outro dia

      Se for eu e você

      Se assim acontecer


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo de base, baixo, violão, guitarra e marimba de vidro: Yuri Queiroga

      Sanfona: Mestrinho

      Bateria: Tostão Queiroga

      Percussão: Anjo Caldas

      Zabumba: Durval Pereira

      Cello: Fabiano Menezes

    • Além da última estrela (Dominguinhos / Fausto Nilo) Letra


      Além da última estrela

      Além da insensatez total

      Vão as palavras mais belas

      Além do fim do jardim do caos

       

      É uma verdade que eu vivi

      Quando tentei te acompanhar

      Segui a cor do teu sorriso

      E me enlouqueci

      Sem tempo nem lugar

       

      O véu da brisa passará

      De manhã sobre nós

      Vendo a cidade pela janela

      Sei que não somos sós

       

      Mais uma vez só bastava pedir

      Um tudo de mim por nada de mais

      Deixar meus lábios felizes assim

      Falando essas loucuras

       

      Minhas palavras têm pouco a dizer

      Porque teu silêncio é mais

      Quem dera ter o prazer

      De ser um verso em tua voz


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo de base: Yuri Queiroga e Tostão Queiroga

      Cello: Fabiano Menezes

      Harpa: Cristina Braga

      Baixo acústico: Ney Conceição

      Sanfona: Mestrinho

      Guitarra Fx: Yuri Queiroga

    • O ouro do pó da estrada (Lula Queiroga / Yuri Queiroga) Letra


      Meu olho chove

      A água da despedida

      Não sou nem posso ser só daqui

      Minha janela é o mundo

      Vou conhecer outros ares

      Novas pessoas, lugares

      Vou sentir saudade

      Mas o trem da vida apitou chamando

       

      Meu olho adora

      O ouro do pó da estrada

      Eu não preciso do fim pra chegar

      Encontro antigos amigos

      Espalho meu coração

      Ouço a natureza cantando

      Vou sentir saudade

      Mas o trem da vida apitou chamando

       

      Foi bom o nosso tempo de amizade

      Jamais vou esquecer desse carinho

      Prometo que um dia eu volto

      Mas eu vou sozinho

       

      Os dias passarão pela janela

      Cidades cruzarão o meu caminho

      Prometo que um dia eu volto

      Mas eu vou sozinho


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo de base: Yuri Queiroga e Tostão Queiroga

      Cello: Beto Lemos

      Guitarra, violão e marimba de vidro: Yuri Queiroga

      Zabumba: Durval Pereira

      Percussão: Anjo Caldas

      Sanfona: Mestrinho

      Synth: Marcelo Jeneci

      Bateria e beat: Tostão Queiroga

      Baixo acústico: Ney Conceição

    • O mundo (André Abujamra) Participação especial: Roberta Sá, Maria Gadú e Lucy Alves Letra


      O mundo é pequeno pra caramba

      Tem alemão, italiano, italiana

      O mundo, filé à milanesa

      Tem coreano, japonês, japonesa

       

      O mundo é uma salada russa

      Tem nego da Pérsia, tem nego da Prússia

      O mundo é uma esfirra de carne

      Tem nego do Zâmbia, tem nego do Zaire

       

      O mundo é azul lá de cima

      O mundo é vermelho na China

      O mundo tá muito gripado

      O açúcar é doce, o sal é salgado

       

      O mundo, caquinho de vidro

      Tá cego do olho, tá surdo do ouvido

      O mundo tá muito doente

      O homem que mata, o homem que mente

       

      Por que você me trata mal

      Se eu te trato bem?

      Por que você me faz o mal

      Se eu só te faço o bem?

       

      Todos somos filhos de Deus

      Só não falamos a mesma língua

      Todos somos filhos de Deus

      Só não falamos a mesma língua

       

      Everybody filhos de God

      Só não falamos a mesma língua

      Everybody filhos de God

      Só não falamos a mesma língua


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo de sopros, sax, flauta, pífano e vocal: Henrique Albino

      Arranjo de base, beat, synth, guitarra e baixo: Yuri Queiroga

      Bateria: Cleyton Pedrosa e Tostão Queiroga

      Violão: Marcos Arcanjo

      Percussão: Lucas dos Prazeres

    • José (Siba) Participação especial: Barca dos Corações Partidos Letra


      Não fique de boca aberta, Zé

      Em cidade que for chegando

      Não fique de boca aberta, Zé

      Em cidade que for chegando

       

      Tem que tomar cuidado, ô, Zé!

      Tem que tomar cuidado, ô, Zé!

       

      Tem casa amarela

      Tem casa vermelha

      Tem casa com fome

      Tem casa na ceia

      Tem casa com florzinha na janela

      Tem cabra que eu não sei

      Que malvadeza é aquela?

      Na rua do marmeleiro

      Na frente da casa do coveiro

      Tão te esperando, Zé

      Zé, tem que tomar cuidado, ô, Zé

      Tem que tomar cuidado, ô, Zé

       

      Tem arma de bala

      Cacete e bengala

      Tem faca e serrote

      Punhal, cravinote

      Soldado sem farda

      Resórve, espingarda

      No meio da cidade

      Vão te deixar nu

      E nesse lundu

      Sem querer razão

      Até com a mão

      Vão querer dar em tu

      Zé, tem que tomar cuidado, ô, Zé

      Tem que tomar cuidado, ô, Zé

       

      Entrou pela frente

      Saiu por detrás

      Puxou por um lado

      Mexeu e lá vai

      O Zé não tem medo

      Nem do satanás

      Zé, tem que tomar cuidado, ô, Zé

      Tem que tomar cuidado, ô, Zé

       

      Não fique de boca aberta Zé

      Em cidade que for chegando

      Terra alheia

      Pisa no chão devagar


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo de base, baixo, guitarra e beat: Yuri Queiroga

      Bateria: Tostão Queiroga

      Percussão: Lucas dos Prazeres

      Barca dos Corações Partidos

      Rabeca e vocal: Beto Lemos

      Cavaco e vocal: Ricca Barros

      Violão e vocal: Renato Luciano

      Vocais: Eduardo Rios, Fábio Enriquez, Alfredo Del-Penho e André Alves

    • O fole roncou (Luiz Gonzaga / Nelson Valença) Letra


      Em cidade que for chegando

      Não fique de boca aberta, Zé

      Em cidade que for chegando

       

      Tem que tomar cuidado, ô, Zé!

      Tem que tomar cuidado, ô, Zé!

       

      Tem casa amarela

      Tem casa vermelha

      Tem casa com fome

      Tem casa na ceia

      Tem casa com florzinha na janela

      Tem cabra que eu não sei

      Que malvadeza é aquela?

      Na rua do marmeleiro

      Na frente da casa do coveiro

      Tão te esperando, Zé

      Zé, tem que tomar cuidado, ô, Zé

      Tem que tomar cuidado, ô, Zé

       

      Tem arma de bala

      Cacete e bengala

      Tem faca e serrote

      Punhal, cravinote

      Soldado sem farda

      Resórve, espingarda

      No meio da cidade

      Vão te deixar nu

      E nesse lundu

      Sem querer razão

      Até com a mão

      Vão querer dar em tu

      Zé, tem que tomar cuidado, ô, Zé

      Tem que tomar cuidado, ô, Zé

       

      Entrou pela frente

      Saiu por detrás

      Puxou por um lado

      Mexeu e lá vai

      O Zé não tem medo

      Nem do satanás

      Zé, tem que tomar cuidado, ô, Zé

      Tem que tomar cuidado, ô, Zé

       

      Não fique de boca aberta Zé

      Em cidade que for chegando

      Terra alheia

      Pisa no chão devagar


      FICHA TÉCNICA:

      Arranjo de base: Yuri Queiroga e Tostão Queiroga

      Bateria: Tostão Queiroga

      Baixo, guitarra e cavaco: Yuri Queiroga

      Zabumba: Durval Pereira

      Percussão: Anjo Caldas

      Sanfona: Beto Hortiz

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É lindo ouvir o 36° disco da carreira vitoriosa e a todo vapor de Elba Ramalho e ter vontade de levantar, pular, fazer alguma coisa importante imediatamente. Elba faz, sempre fez. Elba e sua energia renovada a cada manhã, tem um pé no sertão da sua terra e o outro no mundo. Se conhece a palavra “medo”, a ignora solenemente, a ponto de esvaziá-la de sentido. Até sarau na casa de Elba vira Rock in Rio unplugged! Nunca vou esquecer daquela noite no Canecão, onde nem sonhava conhecê-la ou ainda chamá-la de minha amada amiga, quando aquela mulher entrou com uma galinha nos braços, numa ladainha danada, pelo meio das cadeiras e num passe de mágica se transformou na estrela Elba Ramalho, subiu no palco e botou pra quebrar com pernas e cordas vocais, de embasbacar até os mais viajados da Broadway.

Não é todo dia que seu descobridor se chama Chico Buarque. Foi no disco dele, em 1978, sua estreia fonográfica, retirada do antológico musical “Ópera do Malandro”, na faixa “O Meu Amor”, dueto com Marieta Severo. No ano seguinte, seu primeiro e belo álbum, “Ave de Prata” estourava com outra canção do nobre padrinho, “Não Sonho Mais”. De lá pra cá, tudo é caminho e um rastro de garra e sucesso. Elba tem intimidade com a multidão, é “bicho de palco”, como se diz e seus registros de estúdio trazem essa semente, que frutifica no colo e nos ouvidos de seu imenso público.

Agora temos “O Ouro do Pó da Estrada”, que não me deixa mentir. Começando a ouvir e já sentindo a busca de Elba pelo desafio, o desafio de estar em cena há 40 anos e sempre em atitude de plena procura, sem perder de vista o que a identifica.

Já na abertura, de Yuri Queiroga e Manuca Bandini, Elba diz a que veio: “eu vou seguir você até doer o calcanhar”. Esse “você” sou eu, vocês, a música, o sonho, a vida. Sem descanso. Tem uma pegada, um suingue, um peso, um rock n’ roll de manguebeat nesse sertão paraibano de Elba, nessa produção de Yuri Queiroga e Tostão Queiroga. Com direito a texto “na beira do mundo, querendo voar”, de Bráulio Tavares. Isso não é apenas uma abertura, é uma invasão das boas, abram as portas e os ouvidos, “O Ouro do Pó da Estrada” vai passar!

Com Ney Matogrosso, “Girassol da Caverna”, de outro grande dessa família, que atende pelo nome de Lula Queiroga, Elba, apoiada em seu Nordeste driveado, apresenta uma faixa que começa orquestral, suave e na qual melodias de flauta carregam a introdução, porém deságua numa força de arautos, Elba e Ney, mensageiros de um apocalipse irresistível. “Na Areia”, de Juliano Holanda, soa suave e confessional, como um balanço dos dias todos, com direito a cordas e sanfona de Marcelo Jeneci. “Oxente”, de Jeneci e Chico César, vem rasgando a pista, vestida de um forró arretado de gostoso, fala de ser inteiro nas metades, de procurar amigos e amor. E por falar nesse assunto, logo depois, a delícia se chama “Se Não Tiver Amor”. Aquele gênero musical onde Elba deita e rola, “xotestrot”! Como um fox nordestino, anunciado por uma caixa, acordeom e triângulo, Elba diz quase rindo, “amor é nossa última chance”. Quem é que pode duvidar? A doce composição é do até então ator, George Sauma, que se revela um autor espontâneo e livre.

Dando nome ao disco, “O Ouro do Pó Da Estrada”, de Lula e Yuri Queiroga, traz a Elba que sempre segue o apito do trem, que a levará a novas viagens. Na bagagem, cuidada por seus produtores, Elba leva alguns músicos do coração, que a acompanham na estrada e que ajudam a dar identidade ao seu percurso. Marcos Arcanjo, Durval Pereira e Ney Conceição, são alguns deles.

As regravações também permeiam o álbum, perfeitamente acomodadas ao conceito e às inéditas. Com inspirada introdução de cordas, escritas por Arthur Verocai, “Girassol”, sucesso do grupo Cidade Negra, assinada por Pedro Luís, Bino Farias, Toni Garrido, Lazão e Da Gama, não resiste ao reggae onde nasceu, mas sempre seguida pelas cordas, como uma rede macia conduzindo tudo. “Se Tudo Pode Acontecer”, então essa balada também roçou no reggae-Elba e ficou de novo pronta para se renovar em nossos ouvidos. Os autores são Arnaldo Antunes, Alice Ruiz, João Bandeira e Paulo Tatit. A geração 1990 de compositores chegou forte na voz de Elba, que usa sua verve dramática e regrava com jovens e singulares colegas, de André Abujamra, “O Mundo”. São elas, Roberta Sá, Maria Gadú e Lucy Alves. Três lindas carreiras.

“José”, do pernambucano Siba, já cantada por Elba em outros momentos, traz uma canção dos tempos do Mestre Ambrósio, banda importante do movimento manguebeat, que trouxe mais inteligência e consistência para nós todos naqueles tempos.

“Princesa do Meu Lugar”, de Belchior, também gravada por Amelinha, entre cordas e zabumba, “suinga” na voz de Elba, que convoca seus agudos mais distantes a comparecerem nos clarões da melodia, por vezes falada do mestre, que partiu não faz muito tempo. Por falar em mestres, “Além da Última Estrela”, de Dominguinhos e Fausto Nilo, traz Mestrinho na sanfona, para lá e para cá, com seu coração virtuoso, que entrega para a harpa de Cristina Braga a canção já clássica do cancioneiro nacional e ganha mais uma linda declaração de amor, na voz de Elba.

Para quem, como eu, tem o estranho hábito de seguir o roteiro de um álbum, o encerramento será com “O Fole Roncou”, de Seu Lula Luiz Gonzaga e Nelson Valença. Na faixa, a Elba roqueira pega o forró pelo pescoço, aproveitando o arranjo pop da dupla de produtores destemidos, Yuri e Tostão. Arrasta o pé e bata cabeça, no som de Elba você pode tudo. Artista maior, no seu palco, no seu estúdio, na sua sala de visitas, onde tudo cabe. O que for novo, desafiador, clássico ou regional. Tudo vale, tudo vira ouro, no pó da estrada traçada por Elba Ramalho em sua carreira, que vem sendo construída sem descuido, por 40 anos. Que sorte, Brasil, a música brasileira vai te salvar!

Zélia Duncan
Novembro/2018

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